Mitologia patina em 'Imortais'

Dos mesmos produtores de 300 - a chamada publicitária tem valor de advertência, mas na verdade ela informa o público sobre o que vai encontrar em Imortais. O longa de Tarsem Singh que estreou ontem volta a escavar na arqueologia da Grécia mitológica. Embora a máquina do cinemão procure relatá-lo com 300, o novo épico tem mais a ver com Fúria de Titãs.

O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2011 | 03h05

A mitologia, propriamente dita, pouco ou nada tem a ver com a história. Imortais parece uma variação do remake de Conan, o Bárbaro, com seu herói obcecado poir vingança e o vilão que busca a arma que lhe permitirá dominar o mundo. Teseu é interpretado por Henry Cavill, o novo Superman do filme de Zack Snyder, que só estreia em 2013. Parece - na verdade, é - um herói dos quadrinhos. Na mitologia, é famoso principalmente por haver enfrentado o minotauro em seu labirinto. Na ficção hollywoodiana, é o depositário do arco de Épiro, uma criação dos roteiristas de Hollywood, sem respaldo nos mitos do helenismo.

Um letreiro informa o público, de cara, sobre a teogonia - literalmente, a origem dos deuses. Houve uma batalha entre duas raças de seres imortais. Os vitoriosos se autoproclamaram deuses e os derrotados, os Titãs, foram aprisionados no Monte Tártaro. Na trama do filme, Hipérion busca o arco de Épiro para libertar os Titãs e dominar o mundo. Zeus, pai dos deuses, proíbe os habitantes do Olimpo de intervirem nas guerras dos humanos, mas ele próprio é o mentor de Teseu, a quem protege. Dois outros personagens ajudam o herói - um ladrão e a virgem Freida Pinto. Hipérion, o vilão que odeia os deuses e matou a mãe de Teseu, é interpretado por Mickey Rourke com seu look degradado pós-O Lutador. Nada disso tem a ver com a teogonia de Hesíodo. A própria representação visual, seja dos deuses ou dos seus ambientes, fica a anos-luz da iconografia clássica.

As roupas e cenografia parecem muito mais emprestadas a uma tradição que remonta ao Oriente, o que aumenta a confusão. Vai depender do seu envolvimento com a trama e os personagens a possibilidade - mínima - de viajar na aventura de Imortais. É curioso como, desde que Peter Jackson recriou a saga clássica de JRR Tolkien em O Senhor dos Anéis, Hollywood tem revalorizado as mitologias, não necessariamente a greco-romana. As sagas nórdicas - Thor - também têm estado em alta, mas o sucesso de 300 e Fúria de Titãs estimulou o interesse pelo Olimpo.

A busca da imortalidade através da glória dos feitos é um tema recorrente da literatura grega. Há uma citação de Sófocles sobre isso. Hipérion busca a imortalidade a qualquer preço, Teseu a conquista por sua ética. O filme se encerra com a proposta de uma sequência - uma outra etapa da luta entre deuses, imortais e Titãs (se é que sobrou algum). O filho de Teseu encaminha-se para ser o novo herói. Como Imortais estreou bem nos EUA, é possível apostar em Imortais 2. A questão será como encaixar Henry Cavill se, como Hollywood espera, estourar na armadura do Homem de Aço.

O indiano Tarsem Singh foi diretor de segunda unidade de O Estranho Caso de Benjamin Button, de David Fincher. Antes disso, havia dirigido A Cela, com Jennifer Lopez. Nascido na Índia e filho de um engenheiro, estudou economia nos EUA, mas se orientou para o cinema. Começou com videoclipes, o que lhe condicionou o estilo. Imortais é banal como narrativa, o 3-D parece 2-D convertido - ou seja, não impressiona -, mas, justiça seja feita, Cavill e Freida Pinto formam um belo casal. A cena em que ela perde a virgindade chega a ser bem erótica, e rara nesse tipo de cinema para todos os públicos. / L.C.M.

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