Mito milenar, verdade atual

Mito milenar, verdade atual

O eremita Xantao, tio do rei da China, suicida-se no alto da montanha gelada. A morte de um membro da realeza leva os aldeões à consternação. Distantes dos conflitos palacianos, eles ignoram que o próprio rei o sentenciara ao exílio, e que o choro também será sua condenação. Aquele que chorar por Xantao perderá a vida nas mãos dos soldados. O pranto será interditado. Contudo, enquanto os mais velhos ensinam o choro velado, a órfã Jiang Binu verte suas lágrimas abertamente. É ela A Mulher Que Chora - título do primeiro romance do chinês Su Tong publicado no Brasil.

Manoela Sawitzki, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2010 | 00h00

Se mesmo antes do aparecimento da escrita o homem se espelha e reinventa através dos mitos, ainda hoje autores se debatem na busca da originalidade. Su Tong ousou enveredar pelo caminho inverso relatando uma história contada em seu país há pelo menos 2 mil anos. Buscou nas entrelinhas desse enredo aquilo que chama "filosofia popular" - reflexo do cruzamento de questões basais da sociedade chinesa e as contradições da "paisagem emocional" humana.

A lenda fala sobre a mulher que chora a ausência do marido, recrutado para a construção da Grande Muralha, onde a morte aguarda a maioria. Com a iminência do inverno, ela decide percorrer uma distância dada como impossível, levando uma trouxa de roupas para aquecer o amado. A viagem é realizada a despeito das armadilhas do caminho.

Os vizinhos se perguntavam como Jiang Binu conseguia ter tantas lágrimas. Mas a mulher tinha tantas quantas qualquer aldeão: o que a distinguia era a incapacidade de escondê-las. No sopé da montanha, reinava a resignação.

Quando o marido é levado para os trabalhos forçados, Binu fica à deriva. A obstinação de seu sacrifício, em nome do bem do outro, logo se tornará uma afronta a quem se prostra diante do destino.

Pelo caminho, Binu se depara com personagens cruéis. Os mesmos homens, mulheres e crianças que se curvam diante da força opressiva da aristocracia são os algozes de seus iguais na pobreza.

A transposição para a literatura permite que, dois milênios depois, a lenda de Binu ultrapasse as fronteiras do país de origem. Sua exuberância está no retrato que imprime às engrenagens sociais da China. A força da personagem está menos em seus atos que na obstinação do seu desejo pelo reencontro amoroso. E esse nem mesmo a solidez da Grande Muralha foi capaz de deter.

MANOELA SAWITZKI É FICCIONISTA, AUTORA DE SUÍTE DAMA DA NOITE (RECORD)

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