Mistérios e paradoxos de Chopin, para Freire

Pianista relembra relação com a obra do autor que reinventou o instrumento

Entrevista com

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2010 | 00h00

A eloquência de Nelson Freire ao piano costuma ser inversamente proporcional à sua capacidade de falar de si mesmo e de sua relação com a música. Mas, conversando com o Estado, ele é categórico. "Não imagino minha vida sem Chopin." Freire, portanto, deve estar no melhor dos mundos. Hoje, abre na Sala São Paulo um festival dedicado ao compositor, de quem se lembra em 2010 o bicentenário de nascimento - e isso apenas alguns dias depois da chegada ao mercado brasileiro e internacional de seu novo disco para o selo Decca, com a integral dos Noturnos, gravada em dezembro na Inglaterra.

"Martha acha que ele é o compositor mais difícil", continua o pianista, citando Martha Argerich, colega de instrumento e de fama. "Eu lembro com muito carinho das conversas que tínhamos e temos até hoje sobre Chopin." Não há aí um paradoxo? Chopin não é, afinal, um dos compositores preferidos do público, autor de melodias que extravasam o mundo dos clássicos? "O fato é que com sua música tudo soa muito natural, espontâneo, os sons vão direto ao coração das pessoas. Mas, para o pianista, as obras exigem um trabalho sem igual, entrega completa e muito tempo de dedicação", diz ele. E completa: "Há muitos paradoxos em sua obra".

Tarefa do pianista é desvendá-los, "ou ao menos tentar". Nesse sentido, os Noturnos servem de exemplo. O plano original era aproveitar o bicentenário para lançar os dois concertos para piano do compositor, que seriam gravados com o maestro Riccardo Chailly e a orquestra do Gewandhaus de Leipzig, mesma trupe com quem registrou os concertos para piano de Johannes Brahms. "Mas houve algum problema na agenda, o tempo foi passando e nos demos conta de que não daria tempo de fazer. Foi então que surgiu essa outra possibilidade."

Os 20 Noturnos foram escritos ao longo de toda a vida criativa de Chopin, de 1833 a 1849 (há outros publicados postumamente) - e, entre muitas qualidades, costuma-se chamar atenção para a influência que a ópera tem nessas peças, que exigem do intérprete "fazer o piano cantar". Freire fala ainda em mistério e expressividade. "Não há como não se encantar com a riqueza que essas peças sugerem", diz. "Cada um deles tem uma característica, um ambiente muito próprio, no qual Chopin explora elementos como poesia, drama, sedução, sensualidade."

Freire toca hoje com a Filarmônica São Paulo regida por Claudio Cruz, abrindo festival da Sociedade Chopin do Brasil (Maria João Pires é a próxima atração, em 5 de abril). No programa, o Concerto nº 2 . O pianista lembra que o primeiro contato com a obra foi com Guiomar Novaes, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. "Uma revelação. Eu tocava Chopin desde menino, mas nunca tinha percebido a obra daquela maneira." Freire perdeu as contas do número de gravações de Guiomar tocando a peça, feitas ao vivo. Para nós mortais, há apenas uma edição comercial, importada, em que ela toca ainda o Concerto nº 4 de Beethoven, uma de suas especialidades. Não é fácil de achar, mas vale o esforço. E afinal, o que havia de tão especial na interpretação de Guiomar? "Era diferente de tudo, nunca havia ouvido algo igual. E desde então esse concerto acabou virando meu preferido, ele é misterioso, e isso para mim significa que ele é autenticamente chopiniano."

Serviço

Nelson Freire. Sala São Paulo (1.484 lug.). Praça Júlio Prestes, 16, Luz, 3223-3966. Hoje, 21 h. R$ 150/R$ 300

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