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Mistérios do tempo

Historiadores não pensam o passado como estável ou estático, ele é movediço e escorregadio

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

09 Setembro 2018 | 02h00

Começo com uma narrativa histórica. No sul dos atuais Estados Unidos, ingleses tentaram firmar uma colônia no final da década de 1580. A colônia de Roanoke foi autorizada pela rainha Elizabeth I. Sir Walter Raleigh enviou dois grupos para lá e, naquela região, nasceu a primeira criança de fala inglesa da América: Virgínia Dare.

A colônia tinha inimigos entre indígenas e espanhóis próximos. Para garantir suprimentos e apoio, alguns retornaram para o arquipélago britânico com a promessa de voltar com ajuda imediatamente, mas o episódio da tentativa de invasão espanhola de 1588 (Invencível Armada) retardou o socorro. 

No verão de 1590, finalmente, o reforço chegou e não localizou mais nenhum súdito da Rainha Virgem na região. Em uma árvore, gravada fundamente, a palavra Croatoan. Em árvore próxima, apenas as letras CRO figuravam. O que teria acontecido com a chamada “colônia perdida”? Qual o significado efetivo da mensagem colocada nas árvores? Todas as pesquisas foram inconclusivas. 

A história de episódios, anedótica, de frases bombásticas e mistérios é, de longe, a preferida dos não especialistas. O biólogo é inquirido a responder qual o mamífero mais longevo, qual o ser vivo mais extenso, qual a cobra mais venenosa do mundo ou coisas do gênero. O estudioso da língua deve explicar a palavra mais extensa do nosso léxico, indicativa de uma doença específica do pulmão em função de aspirar cinzas vulcânicas, dicionarizada no Houaiss com suas impressionantes 46 letras: pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico. Talvez pior do que o lado anedótico do conhecimento seja alguém decorar a palavra e perguntar para outra pessoa. Tente supor uma ocasião na qual você poderia sofrer da doença com 46 letras, até porque, com o pulmão enfraquecido pelas cinzas terríveis, a chance de ter fôlego para descrever o mal é pequena. 

Os livros que podem vender mais têm títulos como Os Tiranos Mais Terríveis da História ou As Dez Famílias Mais Ricas de Todos os Tempos. 

Qual a validade do conhecimento anedótico ou baseado em superlativos? A resposta passa pelo sentido que damos ao estudo da História e ao conhecimento como um todo. É muito claro a um historiador profissional que conhecer seu campo implica saber datas, acontecimentos, processos históricos, teoria, metodologia de pesquisa e um punhado de coisas que o ajudem a pesquisar o passado. Também é notório que buscamos conhecer experiências passadas não pelo lado antiquarista da coisa. Historiadores não pensam o passado como estável ou estático. O senso comum supõe que algo aconteceu e isso ficou registrado. Bastaria ler o registro e ver que tal situação foi assim ou assado. Nesse sentido, um historiador seria um mero sacerdote de um deus chamado passado que ditaria em nossos ouvidos tudo o que devemos escrever e como fazê-lo. Ledo engano! O passado é movediço e escorregadio. Cada novo documento revela olhar desconcertante e coisas que desconhecíamos. Cada novo enfoque em documento já conhecido pode revelar uma leitura não percebida antes, uma nova perspectiva. 

O segundo caminho é que o presente motiva a pesquisa histórica. Saber que houve uma colônia perdida na Virgínia, em si, não acrescenta muito. Mas saber que os ingleses a fizeram tentando imitar a grandeza dos impérios ibéricos, que lhes serviam de modelos de modernidade, pode, no presente, ajudar a superar nosso complexo de cachorro vira-lata com nossa herança lusa. Entender que ser moderno não é necessariamente algo positivo também é algo que se pode aprender com os episódios da colonização. Saber que o feltro do chapéu do soldado holandês num quadro de Vermeer tinha origem em florestas canadenses pode parecer banal, porém revela fluxos de comércio mundial, ajuda a entender o princípio da globalização, lógicas de relacionamentos entre alteridades no século 17. E, dessa forma, iluminamos questões atuais. Comer uma batata-inglesa, hoje, me leva a pensar que um tubérculo americano cruzou o oceano e ganhou as plantações irlandesas, sustentando o país. A Revolução Industrial talvez não tivesse ocorrido com o ímpeto que teve sem esse alimento nas barrigas esfaimadas de trabalhadores europeus. A crise de meados do 19, fruto do colapso da produção de batata, esvaziou imensas regiões britânicas levando grandes contingentes populacionais ao outro lado do oceano, inchando cidades do Leste e impulsionando a Conquista do Oeste americano. Entender que, do hijab à burca, certas vestimentas e véus islâmicos podem ser vistos como símbolos de opressão feminina/afirmação de identidade religiosa é curioso ou relevante, dependendo da situação. Saber que o costume corânico de cobrir o corpo sofisticou-se a partir do contato do califado abássida com os cristãos bizantinos dá à curiosidade outra dimensão. Emulando cristãos, os islâmicos passam a exigir delas que cobrissem o rosto. Saber que judias, árabes, gregas e bizantinas usavam véus relativiza verdades de nossos tempos. O véu esteve muito mais associado a distinções sociais do que a religião. Era obrigatório para mulheres da elite e proibido a pobres e escravas. Episódios e anedotas, sem dúvida, mas que nos levam a entender processos complexos e atuais.

Bom domingo para todos nós!

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