Mistérios de Clarice Lispector

Debate sobre obra da escritora em Nova York reúne quase 200 pessoas

Tonica Chagas, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

Pouco conhecida nos EUA fora dos cursos universitários de estudos latino-americanos, a obra de Clarice Lispector (1920- 1977) ganhou impulso no país após o lançamento, em agosto, de Why This World: A Biography of Clarice Lispector (Oxford University Press), de Benjamin Moser (lançado no Brasil com o título Clarice). Exemplo dessa repercussão foi o seminário Clarice Lispector: Her Life and Legacy, que lotou o auditório da Americas Society, em NY, na quinta-feira. A maioria dos quase 200 participantes era de leitores comuns, interessados em ouvir sobre os mistérios de Clarice. O seminário, que reuniu a professora e crítica Nádia Gotlib e os escritores Moacyr Scliar e Adriana Lisboa, integra as comemorações de 90 anos do nascimento da escritora promovidas pela City University of NY e terão continuidade em setembro, com leituras, debates e exibição de filmes baseados nos livros da escritora.

Autora de Clarice Fotobiografia (Edusp, 2007), Nádia selecionou 18 fotos das cerca de 800 que compõem o livro para sintetizar a vida da escritora, desde que sua família partiu com ela ainda bebê da aldeia de Chechelnyk, na Ucrânia, para Maceió, às passagens pela Itália, Suíça, Inglaterra e pelos EUA, como esposa de diplomata. "Nas milhares de fotos que pesquisei, só em duas ela aparece com sorriso aberto", contou.

Como Clarice, Scliar vem de família de judeus russos que emigraram para o Brasil espantados pelo racismo que se espalhou pela Europa depois da 1ª Guerra. À crítica de que Clarice recusou a sua identidade judaica, Scliar apontou no romance A Hora da Estrela "não só uma síntese da condição da mulher com a dos judeus", como a junção "da dor do brasileiro com a dor do judeu". Lembrou que o próprio nome da protagonista, a nordestina Macabeia, é referência aos judeus que lideraram a revolta contra a prática do judaísmo em Jerusalém um século e meio antes da era cristã, e que o humor da história "é típico humor judeu".

Scliar lembrou a comparação feita pelo tradutor do romance A Maçã no Escuro (1961) para o inglês, o americano Gregory Rabassa, que considera Clarice o Kafka da literatura latino-americana. E, como no caso de Kafka, segundo Scliar, talvez só o próprio Freud poderia ter analisado Clarice. Ela mesma dizia: "Sou tão misteriosa que não me entendo."

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