"Mistérios da Literatura" revela influências literárias

Em Mistérios da Literatura, o jornalista Daniel Piza fala dos autores que mais influenciaram sua vida e carreira profissional, atribuindo à memória essa característica "bricabraque desconexo, feito de pequenos pontos de luz num universo escuro". O novo livro do editor executivo e colunista do Estado, escolheu como guias nesse mundo de trevas, quatro autores que foram importantes em sua formação. O lançamento ocorre hoje, na Livraria da Vila da Casa do Saber. Seguindo a sugestão do crítico literário Antonio Candido, feita num artigo sobre o amigo Décio de Almeida Prado, Piza exercita a memória e traça no livro a história de sua experiência afetiva com as obras que marcaram momentos de sua vida. Constrói, enfim, uma "história íntima" de sua estante, reunindo no livro quatro autores: o norte-americano Edgar Allan Poe, o brasileiro Machado de Assis, o polonês naturalizado britânico Joseph Conrad e o tcheco Franz Kafka. Mistérios da Literatura é revelador. Híbrido de memorialismo e ensaio literário, o livro traça relações entre as obras dos quatro autores. Ao mesmo tempo, indica como a energia desses criadores mexeu com os valores do adolescente Piza. Leitores de sua coluna no Caderno 2 vão descobrir, por exemplo, que a razão de sua crença no materialismo científico não se deve só à leitura de Marx e Nietzsche aos 14 anos, mas à descoberta de A Narrativa de Arthur Gordon Pym, livro em que Poe dissocia o caminho da natureza dos caminhos de Deus, sucumbindo ao argumento darwinista. O "naufrágio moral" de Pym, segundo Piza, é fundador da modernidade literária, laica, desiludida. A uma certa altura de Mistérios da Literatura, ele retoma o personagem de Poe - um homem atraído pelos perigos que o mar oferece - e coloca-o ao lado dos marinheiros de Conrad, que buscam na aventura uma resposta para a experiência existencial. Os navios de Conrad, analisa Piza, são representações metafóricas da vida, que não pode ser comandada. No entanto, ele resiste à idéia de que o escritor tenha sido um pessimista. Cético, sim. Ele discorda igualmente que o autor tenha denunciado a civilização européia e preservado os antípodas. Como Montaigne, defende Piza, Conrad mostrou "que a barbárie está em nós". Outra provocação está contida no capítulo dedicado a Kafka, em que ele se nega a ver a literatura do escritor tcheco como uma alegoria sobre o onírico ou o inconsciente. Para ele, trata-se de romper com a separação entre racional e irracional, "ao mostrar uma razão que alimenta a excitação sentimental". Kafka, diz, não sonhou com um ser humano melhor. Apenas sugeriu que um pouco de realismo não faria mal a quem busca uma saída de emergência no sonho. O capítulo dedicado a Machado de Assis é o mais abrangente, até porque Piza prepara a biografia do fundador da Academia Brasileira de Letras. Piza encantou-se com Machado há quase 20 anos. Atropelado em 1986, foi durante as sessões de fisioterapia que começou a ler Quincas Borba, descobrindo um interlocutor ausente com quem poderia trocar uma ou duas idéias mais ousadas. Piza faz da filosofia de Borba o ponto de partida para um retrato instantâneo do homem machadiano, que pode ser visto tanto como "pateta" como um patético "que obriga o leitor a compreender seu drama, seu pathos". Machado, conclui seu biógrafo, "não é o pessimista que dizem, pelo menos não o pessimista que acha que a vida é só dor e miséria". Ele é o retrato do Brasil, "dividido entre a alegria e o relaxamento e o velho mundo de respeito e conhecimento". Quer ser uma fusão de ambos, um híbrido das duas naturezas. Mais interessante ainda é a aproximação de Machado e Poe. Em ambos, segundo o autor, há uma superposição de razão e loucura. "Vivemos numa zona de sombra", conclui. Difícil discordar. Mistérios da Literatura - Poe, Machado, Conrad, Kafka. De Daniel Piza. Editora Mauad. 119 páginas, R$ 27. Liraria da Vila - Casa do Saber. R. Dr. Mário Ferraz, 414, 3073-0513

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.