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Mistérios da criação

Responda quem puder: o que explica o nascimento de certas obras de arte?

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2017 | 02h00

Diante de uma bela criação, vem a vontade de saber: como foi que nasceu aquela maravilha? Onde, como, em que exata circunstância começou a brotar o fruto privilegiado, às vezes tão perfeito que dá a impressão de existir desde sempre, sem necessidade de um criador.

Na verdade, nem precisa que a coisa seja bela. No item criatividade, ela pode ser feiosa, desde que bem-sucedida. Até mesmo aqueles bonecos balançando os braços na calçada da borracharia, indiscutivelmente um sucesso?, perguntou um espírito de porco das minhas relações. Como eu me limitasse a rir, o camarada, cuja imaginação não precisa de jatos de ar para inflar-se, apanhou a deixa e desfiou um enredo até verossímil.

Aqueles bonecões, principiou ele, foram concebidos como quase todos nós, quer dizer, numa cama, embora não em decorrência dos mesmos procedimentos. Numa noite de domingo, quando já não é tempo de lazer e as sombras da segunda-feira vão baixando sobre as almas, o Benedito e a Maria do Perpétuo Socorro ali estão deitados, no silêncio e tédio de tantos casamentos - e eis que o camarada cutuca a companheira para lhe comunicar uma ideia que acaba de ter, sacada capaz de engordar as finanças da família, as quais, aliás, ao contrário deles dois, se mostram cada vez mais magras. Uns tubos de ar, assim - e o Benedito se põe a descrever, balançando os braços, até que a Maria do Perpétuo Socorro, pés no chão até quando deitada, lhe diz que pare de devanear e trate de dormir. Meses depois... Bem, o final da história fica para cada um imaginar: abastança ou divórcio?

Mas levantemos o nível da conversa acima de vulgaridades rentáveis. Quem não gostaria de saber o que levou Leonardo Da Vinci a pintar aquela moça de sorriso enigmático, ou Machado de Assis a romancear em torno de certa moçoila imperial de olhos de ressaca? Em que exata circunstância e por qual motivo teve Drummond a ideia de poetar não sobre o luar, mas sobre uma pedra? Quem sabe não foi olhando algum passante que Van Gogh resolveu um problema pictórico no qual sua criatividade se debatia?

Para decepção de alguns, o motivador de uma criação feliz pode ter sido o acaso, ou uma banalidade qualquer. Penso na conversa que Fernando Sabino teve, aos 20 anos, com Vinicius de Moraes, aos 30 já veterano e consagrado, no dia em que se conheceram, em Belo Horizonte.

Tomado de admiração reverencial, o moço de província contou ao colega que ele e seus comparsas literários sabiam de cor o poema Ausência, aquele de versos enormes que sucessivas gerações não só de adolescentes teriam na ponta da língua: “Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces / porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto”.

Ao recitar os dois primeiros versos de Ausência, Sabino acreditava que o poeta, por alguma razão, obscura mas com certeza nobre, empunhara a lira para renunciar a um grande amor. Ah, revelou Vinicius em tom casual, esse poema eu fiz para terminar um namoro, porque a menina morava em Niterói e eu não aguentava mais ter que tomar a barca. O moço caiu das nuvens: quer dizer que os delicados versos de Ausência foram feitos para acolchoar um reles pé-na-bunda...

Mais sorte tive eu quando pedi a grandes artistas, entre eles Tom Jobim e Gilberto Gil, que me falassem da gênese dessa ou daquela canção. Nunca me decepcionei. Com Chico Buarque, tive mais. Quando o entrevistava para um texto que acompanharia Tantas Palavras, seu livro de letras, fiquei sabendo, entre outros bastidores, que Cotidiano lhe veio sob o chuveiro; Futuros Amantes, da ideia de uma cidade submersa; e O Velho Francisco, de um sonho em que uma preta velha, no fundo da cozinha, repetia “Fecha a porta!”. 

Nenhuma revelação de Chico, porém, foi para mim tão fascinante quanto o conteúdo de uma fita cassete identificada à mão como Samba-enredo. Talvez não exista por aí outro registro do exato instante em que nasceu uma canção imediatamente clássica. No caso, o samba Vai Passar.

O ano era 1983 e Chico, com o gravador ligado, dava retoques em Dr. Getúlio, parceria sua com Edu Lobo, quando outra canção, intrometendo-se no samba-enredo, começou a brotar, como galho de árvore que pudesse nascer no tronco de uma outra espécie. Emocionante ouvir Chico, agora sem o violão, usando a voz e batidas na mesa, enveredar, tateante, pelas formas ainda embrionárias mas já reconhecíveis de uma nova criação.

Vai Passar lhe daria muito trabalho antes de se tornar o carro-chefe daquele inesquecível disco de 1984. Trabalhado intermitentemente ao longo de meses, sua feitura incluiu uma tentativa de “letra coletiva”, projeto frustrado para cujo êxito Chico providenciou futebol e cerveja em sua casa. Além de cantoria caótica, o saldo limitou-se a um acerto que Francis Hime, ao piano, deu na melodia.

Vai Passar só ganharia título e forma final quando, meses mais tarde, na hora de gravar disco, Chico Buarque se lembrou daquele rascunho musical, e com ele se embrenhou no ambiente propiciatório do estúdio. Mas, para mim (e, quem sabe, para o autor), o mistério segue intacto: como é que pôde aquele galho brotar de árvore tão diversa? Vale também - perdoe o prosaísmo - para bonecões tremelicando em porta de borracharia.

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