Mistério e beleza que brotam de restos

Crítica

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2010 | 00h00

Este é um estranho filme, que adota por título uma dessas frases populares que se veem por aí, e se constitui por restos. Restos de filmagens documentais de antigas viagens dos cineastas, restos de falas, restos de um amor mal resolvido. Lembra um pouco aquele poema de Drummond chamado Resíduo: "De tudo ficou um pouco. Do meu medo. Do teu asco."

Há um narrador que não aparece (apenas pela voz de Irandhir Santos), num monólogo ditado para o gravador, que forma um diário tanto científico quanto sentimental. Zé Renato, o personagem de rosto oculto, é geólogo. Explora a região agreste para fins da transposição do rio. Enquanto trabalha, rememora um caso de amor que fracassou. Caso de amor mal resolvido, que se expressa, ele também, por meio de cacos, fragmentos, resíduos de lembranças, ódios e afetos.

Nesse ambiente rarefeito, a paisagem se impõe. Ou melhor, a paisagem, natural e humana, tal qual é construída pelo olhar dos cineastas Marcelo Gomes e Karim Aïnouz. A paisagem rural mescla-se à paisagem urbana. Da estrada interminável, salta-se para a multidão de romeiros em Juazeiro; dos mandacarus e casinhas isoladas, à babel da feira em Caruaru. Uma e outra filtradas por um olhar subjetivo que sugere paralelismos, por exemplo entre a montagem da feira e a tentativa de reconstrução emocional pelo personagem.

A composição do material cinematográfico obedece a essa ordem de construção poética, por metáforas e deslocamentos. O cinema se faz de fragmentos. Pelo menos esse tipo de cinema, aberto, poroso, alusivo. Denso e leve. Espantoso em seu mistério e beleza convulsiva.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.