Mistério dos mistérios

Freud mostrou que muitas das nossas vontades vêm de partes secretas do cérebro

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

08 Setembro 2018 | 02h00

No começo do filme Freud – Além da Alma, de John Houston (roteiro de Charles Kaufman), uma voz em off teoriza: “Três revelações importantes modificaram a ideia que o homem faz de si mesmo desde a Antiguidade. Três grandes golpes à nossa vaidade”. 

São citados Copérnico (“antes dele, achávamos que éramos o centro do Universo”), Darwin (“antes dele, achávamos que éramos uma espécie à parte, diferente do mundo animal”) e Freud (“antes dele, o homem achava que seus feitos eram resultados de vontades conscientes”). 

Freud mostrou que muitas das nossas vontades vêm de partes secretas do cérebro, o inconsciente. Copérnico, que a Terra é apenas outro planeta entre muitos. Darwin elaborou que, na luta pela existência, por conta da seleção natural através da constante mutação, ou “conversões”, há uma afinidade mútua entre os seres orgânicos, e que talvez sejamos parentes de um mesmo germe.

Antes, vigorava uma oposição entre vida e meio. Darwin pensava na luta incessante por recursos de sobrevivência escassos em algumas áreas: todos são indivíduos em constante variações, que compõem grupos integrados em populações que vivem em proximidade e competem umas com outras, sofrendo mutações, cuja durabilidade é garantida pelo êxito.

Perguntou se os vestígios das “eras perdidas” (fósseis) que, no decorrer do século 19, foram se tornando mais estudados, fossem lidos não como testemunho de formas perdidas, radicalmente diferente das atuais, mas como possíveis elos, parciais e insuficientes, entre formas perdidas e as formas atualmente existentes.

À bordo do HMS Beagle, sentiu-se impressionado com a distribuição dos seres da América do Sul e das relações geológicas entre os atuais e antigos habitantes: “Eram tais que pareciam lançar alguma luz sobre a origem das espécies – o mistério dos mistérios...” (expressão do astrônomo inglês John Herschel sobre a substituição de certas espécies por outras).

A Origem das Espécies, publicado em 1859 e que ganha uma nova tradução e edição da Ubu Editora, vem agora com os artigos que anunciaram e teoria da seleção natural, a polêmica em torno do pioneirismo da descoberta com Alfred Wallace, uma apresentação do tradutor Pedro Paulo Pimenta, ilustrações de Alex Cerveny, como a do Beagle, e, o mais surpreendente, três resenhas publicadas em 1860 detonando o livro, de Asa Gray, Tomas Huxley, ambos criticando o ateísmo da obra, e Richard Owen.

Gray criticou a ideia de os “gêneros maiores” serem aparentados e “que foram um dia satélites de uma espécie central ou progenitora”. Elogiou a paciência e sagacidade do naturalista inglês, mas lamentou que “sua teoria não consiga explicar a origem e a diversidade das espécies”.

Huxley se incomodou com a tese da “transmutação” (mutação), que dita que espécies existentes são resultado de modificações de preexistentes e predecessores, e que viemos todos de um “germe primitivo”: “Mas a hipótese da criação especial não é apenas uma máscara especiosa de nossa ignorância; sua presença na biologia trai a juventude e imaturidade dessa ciência. Pois o que é a história de cada ciência senão a história da eliminação da noção de interferências, do Criador e de outras, na ordem natural dos fenômenos que constituem a matéria dessa ciência?”

Owen pegou mais pesado: “Tais expectativas, devo confessar, viram-se frustradas desde a primeira sentença do livro”. Não citou o ateísmo do autor. Baseou sua crítica em estudos anteriores de zoologia. Com preconceito, pergunta “o que haveria de tão especial nos habitantes da América do Sul” a ponto de sugerir “que o homem é um macaco transmutado”: “A presente obra ocupa-se de argumentos, crenças e especulações sobre a origem das espécies nos quais, ao que nos parece, incorre-se no erro básico que é confundir dois problemas diferentes, as espécies como resultado de uma causa ou lei secundária e a natureza dessa lei da criação”.

Darwin era neto de um naturalista. Aprendeu a observar a natureza e os animais desde a infância. Notou que os ossos do esqueleto do homem podem ser comparados com os ossos correspondentes de um macaco, de um morcego, até de uma foca. O mesmo vale para os músculos, nervos, vasos sanguíneos e órgãos internos. O mesmo vale para o que considerava o órgão mais importante, o cérebro.

Descobriu que o homem pode receber e passar certas doenças a outros animais (varíola, sífilis, cólera, herpes), o que prova a semelhança entre os tecidos. Descobriu que nossas feridas saram pelo mesmo processo de cicatrização, que macacos também têm catarata, inflamações, os mais jovens também mudam de dentes (dentes de leite), e que remédios nos homens produzem o mesmo efeito em macacos.

“É estreita a correspondência na estrutura geral, na estrutura particular dos tecidos, na composição química e na constituição entre homens e animais superiores, especialmente os macacos antropomorfos”, escreveu. 

O embrião humano é idêntico ao de outras espécies, como o do cachorro. As orelhas dos chimpanzés e orangotangos são “estranhamente semelhantes” às dos homens. Ele chegou a desenhar, de próprio punho: o feto de um orangotango é idêntico ao de um homem. Descobriu mais semelhanças: emoção, curiosidade, imitação, atenção, memória, imaginação, razão, melhoramentos progressivos, uso de instrumentos, linguagem, senso do belo. 

E diferenças, como moral e a religião, que contesta até hoje suas teorias. Citou Kant: “Dever! Qual é a tua origem, ó pensamento maravilhoso, que não fazes agir nem com uma benévola insinuação, mas somente para a manutenção da tua pura lei da alma”.

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