Mistério de rapinagem

De como Rufus, gavião espantador de pombos, ficou tão famoso em Wimbledon quanto os morangos com creme

Mônica Manir,

08 Julho 2012 | 05h00

Há que ser muito, mas muito idiota para pisar na bola com um gavião Harris. A frase é do inglês Phillip Glasier, um dos papas da falcoaria, que não tinha muita paciência para lidar com erros próprios ou alheios, ainda mais se tratando de uma ave tão fácil de adestrar - e por isso tão valorizada - como o tal harris, também conhecido como asa-de-telha. Vivo estivesse, Glasier provavelmente fuzilaria a ruiva Imogen Davis ao saber que a jovem deixara um exemplar desses sozinho dentro de um carro, com o vidro aberto para ele respirar, mas a mercê de mãos-leves da pior espécie.

 

Pois a rapinagem não deu sopa e, de quinta para sexta retrasada, alguém levou a gaiola com o gavião, mais um par de luvas e uma capa. Imogen logo postou no Twitter da ave a hashtag #findrufus. Sim, porque Rufus, seu asa-de-telha, tem Twitter com mais de 3 mil seguidores e Facebook com fotos de frente e de bico. Ao contrário de tantos tipos chinfrins que povoam o mundo virtual, Rufus é de fato uma avis rara: ele vigia os céus de Wimbledon, afugentando pombos que porventura queiram melar o charmoso torneio de tênis, ora em vigor.

 

Desde 1999 a administração do All England Club contrata aves de rapina para o serviço.Rufus,que pertence à empresa Avian Environmental Consultants, na qual Imogen trabalha, faz a ronda das 5h30 às 9h30, antes do início das partidas. Ele é um Parabute o unicinctus de boa envergadura, com plumagem castanho-escura, que caça aves até do porte de uma galinha e mamíferos até do tamanho de um coelho. Imogen garante que seu pet não dá uma bicada sequer nos pombos. A priori, não precisa. Os pombos se mandam quando veem um predador natural e Rufus gosta mesmo é de uma codorna. "Ele tem um paladar refinado", diz Imogen.

 

Rufus também costuma sobrevoar a Abadia de Westminster e tinha agenda fechada para a Olimpíada. Nada de aeroportos no seu roteiro,portanto. Mas o asa-de-telha é figurinha fácil na função de garantir aos humanos voos tranquilos. Ele é bom para coibir o assédio de quero-queros, corujas e pombos, enquanto o falcão, parceiro na lida, ajuda a afastar aves maiores, como garças e socós. Estados Unidos, Canadá, Itália, Espanha, Portugal, Uruguai e Argentina estão entre os que usam a falcoaria para evitar colisões entre aeronaves e pássaros, às vezes sem sucesso. O avião que caiu no Rio Hudson em 2009 deu de cara com uma revoada logo depois de sair do LaGuardia, em Nova York. "O para-brisa ficou que era só pena e não houve tempo para uma evasão", contou Chesley Sullemberger, o piloto que virou herói depois de segurar o avião à unha. O Brasil tem o serviço disponível em alguns aeroportos, como o de Confins, o Salgado Filho e o Galeão, mas sente dificuldade em lidar com a urubuzada. "O urubu não vê o gavião como predador e não larga a carniça enquanto ela estiver ali", afirma Gustavo Diniz Mendes de Carvalho, gerente de controle de fauna do Pampulha e um dos fundadores da S.O.S. Falconiformes. Diniz trabalha com aves de rapina desde os 15 anos e seu xodó de momento é Pavarotti, falcão que começou a treinar há cinco anos, no dia em que o tenor morreu.

 

Ele lança um valor de mercado, R$ 10 mil, para uma ave pronta para uso, mas sua proposta é devolver Pavarotti à natureza em breve. Num estilo MasterCard, Imogen disse que Rufus não tinha preço. Talvez por esse motivo, ou porque o gavião começou a atitar fora de controle - ele não gosta muito de cães -, ou pela repercussão que a história tomou, o fato é que assim como Rufus foi, Rufus voltou. Misteriosamente. Três dias depois do sequestro, o gavião foi deixado na Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA), hospital veterinário em Putney, no sudoeste de Londres, com um leve machucado na perna. A dona postou: "We have Rufus back, safe and well". Logo os fãs arrulharam, e os já famosos, entre eles Andy Murray, que hoje quer se celebrizar como o primeiro inglês a levantar a taça do torneio em mais de sete décadas, aproveitaram para posar com o asa-de-telha em punho.

 

Rufus conseguiu alguns dias de folga, mas já voltou ao batente, não se sabe se em tempo de desbancar um pombo que virou mascote depois de aparecer e reaparecer na quadra 1 do complexo. Tanto foi o auê com o columbídeo que a chefia do Grand Slam londrino resolveu lançar,em sua página oficial no Twitter, um concurso para nomear o bicho. Apareceram Maria Shara-Dove-a, Novak Dyoko-Pige e John McEn-crow. Até a competição entrou na jogada. Sacaram ali um torneio de Wing-ledon, ao qual Rufus provavelmente responderia com um skwaaaaaark, como de hábito.

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