Shawn Northcutt/Divulgação
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Missa agnóstica de Verdi

Verdadeiro tsunami emocional, Missa de Réquiem tem três récitas com a Osesp e um elenco de estrelas do canto lírico

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

A Missa da Réquiem, de Giuseppe Verdi, é sempre um acontecimento especial. Ainda mais quando conta com um maestro como o alemão Claus Peter Flor e um ótimo elenco vocal, liderado pela soprano norte-americana Christine Brewer, além da mezzo-soprano finlandesa Lilli Paasikivi, o tenor romeno Marius Manea e o baixo alemão Franz-Josef Selig. São essas as estrelas dos três concertos desta semana, a partir de hoje, da Osesp na Sala São Paulo. Participam ainda o Coro da Osesp e o Coral Lírico de Minas Gerais.

A maior atração é Christine Brewer, a cantora de carreira mais reluzente desse elenco. Ela estreou na Metropolitan Opera House de Nova York em 2003 no papel-título de Ariadne auf Naxos, de Richard Strauss, e de lá para cá trabalhou com Pierre Boulez, Charles Mackerras, Zubin Mehta e Lorin Maazel, entre outros maestros. A mezzo-soprano Lili Paasikivi estreou com Simon Rattle e a Filarmônica de Berlim no papel de Fricka, do Anel do Nibelungo, de Wagner, em 2007, e já trabalhou com Esa-Pekka Salonen, Paavo Järvi e Mariss Jansons. O tenor Marius Manea fez par com Ângela Gheorghiu na Ópera de Munique na temporada europeia passada e foi Rodolfo na Bohème que reabriu o Colón de Buenos Aires este ano. O baixo Selig, que também é experiente e estreará ano que vem em Bayreuth. E o regente Flor, que já regeu a Osesp em 2009, é diretor musical da Filarmônica da Malásia.

A Missa da Réquiem nasceu sob o impacto da morte do escritor romântico italiano Alessandro Manzoni, em 22 de maio de 1873. Verdi o venerava por suas ideias liberais, um anátema para a Igreja. Ateu convicto, Verdi no máximo adotava o agnosticismo, isto é, considerava impossível provar a existência de Deus, numa postura a meio caminho entre a fé e o ateísmo. Por isso, surpreendeu sua disposição de compor um réquiem para homenagear Manzoni já no primeiro aniversário de sua morte. Colaborou, é claro, o fato de ele já ter pronto um magnífico Libera me, Domine, que faria parte de um réquiem coletivo em tributo a Rossini, morto em 1868.

Verdi trabalhou e conseguiu estreá-lo em 22 de maio de 1874, em Milão. Ele mesmo regeu os 270 artistas no palco - 120 no coro e 150 na orquestra. O imenso sucesso popular que obrigou à repetição de várias partes (o Offertorium, o Sanctus e o Agnus Dei) já na estreia também gerou polêmica. O maestro alemão Hans Von Büllow, de passagem por Milão, descreveu a obra como "a mais recente ópera de Verdi, com figurinos eclesiásticos". Poucos meses depois, quando estreou em Viena e de novo provocou repetições do Offertorium e do Agnus Dei, Brahms puxou as orelhas de seu pupilo: "Ele fez papel de tolo. Esta é uma obra de gênio".

Impacto. Os aplausos que irromperam até no meio de uma das partes na estreia dão bem a ideia do impacto emocional que a obra provoca no público, um tsunami parecido com o que provocam ainda hoje as divas e divos líricos, obrigados a repetir as árias mais famosas (mas igualmente arriscados a levar ovos podres se forem mal).

Assim, tornou-se lugar-comum dizer que Verdi transportou a ópera do palco para o altar eclesiástico. Mas sua linguagem é naturalmente dramática. E ele não conseguiria, mesmo que quisesse, mudar isso. Segundo Charles Osborne em sua biografia do compositor, ele queria "exprimir os significados e implicações emocionais do texto litúrgico, tal como em suas óperas (...). A única diferença significativa era que desta vez ele não podia intimidar um libretista para que mudasse os versos!"

São 85 minutos de concentrada adrenalina, que ora explode furiosamente, ora privilegia o pianissimo, numa missa agnóstica, dramática e popular recebida basicamente como espetáculo musical desde a estreia. Eduard Hanslick, o crítico defensor de Brahms, escreveu na estreia vienense que "o grito de "nunca esperávamos isto de Verdi" não terá fim". Em todo caso, como aponta o excelente artigo de Isaiah Berlin em boa hora reproduzido no livreto de maio da Osesp, "Verdi é a voz de um mundo que não existe mais. Sua enorme popularidade tanto entre os mais sofisticados como entre os mais despretensiosos ouvintes de hoje deve-se ao fato de ele ter expressado estados permanentes de consciência nos termos mais diretos, à semelhança e Homero, Shakespeare, Ibsen e Tolstoi".

OSESP

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, 16, telefone 3223-3966. 6ª, 21h; sáb., 16h30; dom., 17h (dias 2

e 3/6, 21h; dia 4, 16h30). R$ 24 a R$ 135. Até 4/6.

Ensaios abertos: hoje, às 18h, e dia 2/6, às 10h - R$ 10.

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