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Mishima sem censura

Ensaio sobre o escritor japonês cruza erotismo do autor com Joana d’Arc e São Sebastião

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2013 | 19h19

A interminável discussão sobre biografias previamente aprovadas nem teria começado se os interessados em separar vida pública e privada conhecessem Mishima ou A Visão do Vazio, da escritora francesa de origem belga Marguerite Yourcenar (1903-1987), primeira mulher a ser eleita para a Academia Francesa de Letras. O livro, há anos fora de catálogo no Brasil, ganhou nova tradução de Mauro Pinheiro para a editora Estação Liberdade e chega às livrarias na próxima semana. Continua sendo, após 33 anos de seu lançamento, o melhor ensaio sobre a obra do escritor japonês Yukio Mishima (1925-1970) – não apenas um estudo acadêmico, mas uma investigação destemida da vida do autor, capaz de redimensionar a herança literária daquele que Yourcenar definiu como “representante autêntico de um Japão violentamente ocidentalizado”.

Mishima foi, segundo suas palavras, o “mártir do Japão heroico que ele, de certa forma, alcançou à contracorrente”. Yourcenar, logo no prólogo, adianta que não pretende julgar seu suicídio, e não apenas porque Mishima pertencia a outro universo cultural, mas principalmente para evitar uma leitura equivocada de seu gesto extremo, o seppuku (suicídio ritual) presente na tradição japonesa. Mishima preparou rigorosamente o cenário de sua morte, segundo o biógrafo oficial do escritor, John Nathan, também seu tradutor. Esse ato suicida, analisa Yourcenar, foi também ensaiado em seus livros. Vida e obra em Mishima confundem-se de tal maneira que, para um historiador ou biógrafo, seria impossível trabalhar com dados autorizados ou com a supervisão de familiares do autor.

A escritora, corajosa, não se intimidou diante da família de Mishima, que preferia ver seu passado enterrado junto ao corpo mutilado do escritor (após o ritual suicida, no dia 24 de novembro de 1970, aos 45 anos, ele teve a cabeça degolada por um dos integrantes de sua milícia particular, que invadiu o quartel general das forças de autodefesa do Japão, em Tóquio). Mishima, casado e com dois filhos (Noriko e Iichiro), era bissexual. Sua mulher Yoko tentou esconder – sem muito sucesso – a orientação erótica do marido. Yourcenar, contudo, não usa a homossexualidade de Mishima como peça de escândalo, mas para relacioná-la aos personagens de sua extensa obra literária.

 

Ensaio sobre o escritor 'A Visão do Vazio', de Marguerite Yourcenar, não existiria se precisasse de autorização prévia

 

Marguerite Yourcenar era uma mulher curiosa e sem preconceitos. Jamais teria se curvado ao movimento organizado por artistas brasileiros contra as biografias não autorizadas, mesmo porque ela sempre procurou saber tudo – tudo mesmo – sobre a vida de quem “biografou”, seja o imperador romano Adriano, retratado numa autobiografia imaginária (Memórias de Adriano) endereçada ao filho adotivo Marco Aurélio, ou seu contemporâneo Mishima, escritor analisado em A Visão do Vazio, que a Estação Liberdade coloca nas livrarias na próxima semana. Em ambos os casos, são homens que se apaixonaram por outros homens, assunto um tanto incômodo e que talvez motive artistas conhecidos a defender o sistema de censura prévia imposto aos editores no Brasil, inibindo biógrafos.

Se a grande Yourcenar enfrentou a ira de historiadores por assumir, em primeira pessoa, a fala de um imperador romano morto, relacionando o suicídio de seu amante Antínoo a um ato político em sacrifício de Adriano, em A Visão do Vazio, ela trata o seppuku de Mishima como um ato heroico de um mártir contra a ocidentalização do Japão, logo ele que, desde criança, era fascinado pela cultura do antípoda. Figura contraditória, como tantos de seus personagens, Mishima, ainda criança, abandonou a leitura de um livro sobre Joana d’Arc por se sentir ofendido em sua masculinidade, ao descobrir que o cavaleiro era uma donzela . Mais tarde, já crescido, experimentou a primeira ejaculação diante de uma imagem de São Sebastião pintada pelo barroco italiano Guido Reni, antes de cair na farra (com uma sunga menor que a de Gabeira) no Carnaval carioca – mas apenas na terceira noite, como revela Yourcenar, sem pudor.

O que a interessa, no entanto, passa longe das especulações sobre as aventurais extraconjugais e homossexuais de Mishima, autor de obras-primas como Confissões de uma Máscara e da tetralogia O Mar da Fertilidade. Eros e Thanatos sempre caminharam freudianamente juntos em direção ao espetáculo final do seppuku do autor japonês, segundo ela. Por que Mishima decidiu fazer de seu suicídio sua “obra-prima” engajada?, pergunta Yourcenar. O escritor, afinal, não escrevera nada nitidamente politizado antes de Eirei no Koe (As Vozes dos Mortos Heroicos), em 1966 – no texto, desapontado com a crescente ocidentalização do Japão, Mishima volta ao passado para prestar homenagem aos camicazes (pilotos suicidas) da 2ª. Guerra, além de repreender o Imperador por ter abdicado de sua condição de “deus”, traindo o ideal nipônico.

Como explicar, então, que o último grito de Mishima no quartel onde se matou tenha sido “Tenno heika Banzai” (Longa Vida ao Imperador!)? Yourcenar compara essa fidelidade a Hirohito à abnegação do católico que, mesmo considerando um papa medíocre, não se importa. Ambos, no final, julgam o ritual mais importante – e Yourcenar mostra que Mishima identifica no Imperador o papel místico de defensor dos humildes e oprimidos. Ainda que fosse para enfrentar o establishment imperial, conclui a escritora, Mishima sentia-se na obrigação de representar os idealistas que resistiam às forças da modernização do Japão.

Foi na conclusão de Cavalo Selvagem, segundo volume da tetralogia Mar de Fertilidade, que fala justamente da devoção ao Imperador e à pátria, que o autor fundou a Sociedade do Escudo, a Tatenokai, lembra Yourcenar, agrupando às próprias custas um grupo paramilitar treinado por ele sob proteção de um regimento do Exército. Yourcenar rejeita interpretações desse gesto como inclinação ao fascismo, preferindo classificar a adesão às forças reacionárias como uma resposta ao Estado moderno, materialista e laico. Ela lembra que, em agosto de 1970, ou seja, três meses antes de seu suicídio, Mishima disse a seu biógrafo inglês que o Japão moderno era “feio”, interessado apenas no dinheiro, comparando sua “maldição” a uma serpente verde que aparece em O Templo do Pavilhão Dourado como símbolo do mal e é identificada com a América).

Se, em Cavalo Selvagem, o suicídio em massa dos samurais limpa o Japão com o banho de sangue, o de Mishima, ensaiado em livros e peças, foi preparado com o requinte de quem decidira morrer não como escritor, mas samurai, revelando sua fixação nos códigos do Hagakure (tratado do século 18 que vê na morte o ponto culminante da combinação das artes, literária e militar). O culto do corpo em Mishima, particularmente em Sol e Aço, acentua Yourcenar, fez dele um ativista ultranacionalista e um homem de ação. Mas é no filme Patriotismo, filmado e interpretado por Mishima, que seu futuro foi, enfim, decidido: nele, um tenente (o escritor) reza para o Imperador antes de acabar com a própria vida. Nenhum bom biógrafo deixaria escapar essa relação.

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