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Miró faz a síntese de seus mestres

Suas reinterpretações de obras de holandeses do século 17 estão em NY

Tonica Chagas ESPECIAL PARA O ESTADO NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2010 | 00h00

Na longa tradição de pintores tomarem como fonte obras de artistas que os antecederam, a reinterpretação de Joan Miró (1893-1983) para quadros de mestres holandeses do século 17 é um marco na história da arte. E Miró - The Dutch Interiors, exposição dossiê que o Metropolitan Museum exibe em Nova York até 17 de janeiro, é uma oportunidade rara de ver, juntos pela primeira vez, os originais realistas de Hendrick Sorgh (1611-1670) e Jan Steen (1626-1679) e suas "miromorfoses", como o historiador William Rubin chamou as traduções surrealistas que lhes deu o pintor catalão.

Mostras pequenas a que os museus têm recorrido com frequência a fim de reduzir gastos, as exposições dossiê partem de uma obra específica para aprofundar a investigação de um momento ou tema na carreira de um artista.

Produzida pelo Rijksmuseum, de Amsterdã, que a exibiu no primeiro semestre, Miró - The Dutch Interiors reúne a série de três pinturas abstratas nas quais, em 1928, Miró transformou O Tocador de Alaúde, que Sorgh pintou em 1661, e Crianças Ensinando um Gato a Dançar, pintado por Steen entre 1660 e 1679, ambas pertencentes ao acervo daquele museu holandês.

Criada quase três séculos depois das pinturas originais, a série de interiores holandeses de Miró surgiu de um risco intencional do pintor em outras direções, para não se prender ao sucesso da sua terceira individual em Paris, em maio de 1928. Ele aproveitou a viagem a Bruxelas para ver uma exposição do amigo Hans Arp e seguiu até a Holanda, com o objetivo de observar de perto a pintura que o seduzia havia tempos.

Postais. Na visita aos museus, comprou vários cartões-postais com reproduções dos quadros mais famosos. Quando voltou daquelas férias, decidiu copiar alguns deles no seu estilo. Em vez de pintar espontaneamente, como fazia até então, Miró preparou uma extensa série de esboços e desenhos que, com os postais, foram doados nos anos 70 para a Fundación Joan Miró, de Barcelona, e ao Museum of Modern Art (MoMA), de Nova York.

Idade de Ouro. Uma seleção daqueles desenhos preparatórios mostra como ele transcreveu a linguagem representativa dos holandeses para o seu vocabulário. Trabalhos produzidos antes e depois daqueles três quadros demonstram o efeito que a Idade de Ouro da pintura holandesa provocou na obra dele.

Em Interior Holandês (I), que é do acervo do MoMA, ele acentuou enfaticamente alguns elementos da composição original (como o alaúde e a cabeça do músico em forma de balão) e deu-lhe um toque erótico. Na fase final, acrescentou-lhe pelo menos 15 detalhes secundários, como um inseto, um morcego, uma maçã e um rastro de pé. "O resultado reflete a mistura tragicômica da minha personalidade", concluiu, ao analisar sua interpretação do quadro de Sorgh.

No segundo quadro, que é da Peggy Guggenheim Collection, de Veneza, os vários motivos vistos nos estudos foram usados sem grandes mudanças na pintura final, que ficou mais perto do ponto de onde Miró partiu.

Todos os elementos do quadro de Steen são identificáveis mas, apesar de ter acrescido apenas uma aranha, uma minúscula cadeira e dois detalhes referentes à anatomia do cachorro, Miró transformou completamente a cena original. Duas faixas que saem do corpo do cão emolduram as figuras, o gato vira um desenho geométrico e o rosto do menino lembra pinturas e relevos de Arp.

Para Miró, Interior Holandês (III), que faz parte da coleção do MET, não se relaciona a nenhuma pintura em particular e é uma espécie de síntese dos motivos explorados nos dois primeiros trabalhos da série.

Realidade. Além dos três quadros baseados nas obras de Sorgh e Steen, a exposição inclui A Batata, também de 1928 e do acervo do MET, que o próprio Miró considerava como parte da série. Ele explicava que, ao escolher o que sentia ser as características essenciais de cada objeto e distorcê-las, simplificá-las e abstraí-las, ele as libertava "das constrições da realidade". E afirmava: "Cada forma, cada cor nas minhas pinturas é baseada na realidade." Seus interiores holandeses estão aí para provar.

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