Miro, entre a luz e a sombra

Lilian Pacce ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2010 | 00h00

Ele tem uma fama daquelas. Para o bem e para o mal. Coisas de quem entra de corpo e alma num trabalho. Ele costura, pinta, borda e... fotografa - um talento renascentista, capaz de assumir todas as etapas do processo de criação. Miro (sim, apenas Miro) é protagonista da história da fotografia de moda e publicidade no Brasil, com trabalhos para revistas como Vogue, Interview e Marie Claire, e campanhas memoráveis como a do primeiro maiô de Lycra, da "bonita camisa, Fernandinho" para a US Top e dezenas da marca Forum.

Dos anos 70 pra cá, Miro não parou de fotografar. E, como uma pintura, tudo em sua vida foi sombra e luz. O olhar é afiado, mas o ouvido mal escuta. Perfeccionista com a imagem, foi relapso com o dinheiro. E assim foi pagando contas e dívidas, embora pudesse ter ficado milionário como tantos de seus clientes.

Agora ele recebe uma homenagem do fotodesigner José Fujocka, que reuniu no livro Miro - Artesão da Luz uma boa dose desses registros, incluindo a série Vaidades - tão primorosa quanto as obras que a inspiraram. Sim, só Miro seria capaz de se propor tamanho desafio: reproduzir Caravaggio, El Grecco, Rembrandt e outros grandes mestres em papel fotográfico. Sem photoshop. Ironicamente, foi nesta busca obsessiva pela arte que ele descobriu ser vítima da síndrome do pânico.

Nós nos encontramos numa tarde e Miro disse que estava decidido a falar tudo. Foram quatro horas de uma conversa deliciosa e sincera, cujos principais temas destaco a seguir.

Mulheres: "Sempre me relacionei mais com mulheres do que com homens. Meu primeiro trabalho importante em publicidade foi com a Magy Imoberdorf, depois a Helga Miethke. Em editorial, Regina Guerreiro e Hiluz del Priore. Meu primeiro casamento foi com a Leda Senise, com quem eu tive a Marcela. Depois me casei com a Gisela Porto, com quem estou até hoje, e nasceu a Eduarda. Isso sem falar na minha mãe, nas modelos, em você..."

Arrependimento: "Fiz um monte de coisa errada. Estudei francês em vez de inglês. Dei muita importância a todos os trabalhos que fiz. Hoje sei que alguns são mais importantes e merecem mais dedicação do que outros. Além disso, me dediquei mais à fotografia em si do que ao estúdio, não me dei conta de que isso era um negócio, uma empresa. Achava que a equipe fazia a parte dela e eu a minha. Só percebi que isso não acontecia há três anos (Miro descobriu um rombo financeiro e os funcionários foram afastados). Agora, depois dos 60 anos, resolvi que tenho que tirar proveito do que fiz, como comprar um apartamento para a Gisela. Se ao acordar todo dia eu tivesse dito: sou o melhor fotógrafo, eu seria o fotógrafo mais rico deste país. Mas não. Acordava todo dia feliz da vida pra trabalhar, mesmo tendo um monte de inseguranças, sem saber se ia conseguir fazer a foto ou não..."

Fama: "Dizem que sou ótimo fotógrafo, mas também ouço os piores adjetivos do mundo, "o Miro é complicado, o Miro atrasa, o Miro refaz a foto sem mostrar". Ou seja, eu imaginava que o outro tinha a mesma expectativa de qualidade que eu, e refazia tudo até me convencer do resultado. No fim, quem mais perdeu fui eu. Estou tentando me desvendar pra você porque até hoje tem esse ranço em torno de mim. E ser lenda é muito ruim. Eu não sou uma lenda. Se há algo em que eu tenha me destacado mais do que outros, é porque eu me dediquei mais."

Trajetória: "Fazendo uma lavagem de alma, tudo aconteceu muito rápido. Saí de Bebedouro aos 19 anos, sem nunca ter encostado numa câmera fotográfica. Comecei no laboratório do José Daloia e aos 23 anos já estava fotografando em SP. Aos 25, estava em Paris trabalhando pra Elle e outras revistas de lá. O Peter Knapp, diretor de arte da Elle, me adotou. Conheci Jeanloup Sieff, Sarah Moon, Guy Bourdin, mas não tinha ideia do que isso representava. Passou rápido porque a Leda ficou grávida e voltamos pra São Paulo."

Lembrança: "Knapp me pediu uma matéria sobre cabelos, de frente e de costas. Um dos cabeleireiros era o Jean Marc Maniatis, que eu também não tinha ideia do que representava. Fiz as fotos em preto e branco e pintei com aquarela depois. É a foto que abre o livro. Pouco tempo atrás, vendo uma Elle francesa havia uma entrevista com o Maniatis mostrando a sala da casa dele. Na parede, estava exatamente essa foto. Imagina um recém-interiorano no meio de tudo aquilo!"

Trabalho: "Geralmente, as fotos que têm mais dinheiro são as que dão mais trabalho e revertem pouco em termos de realização. Normalmente, os melhores trabalhos são de clientes pequenos, que mal têm verba... Eu deveria ter feito os trabalhos que têm muito dinheiro como todo mundo faz: toma lá, dá cá. Mas não, eu me dei a todos. E aos que não tinham verba, eu me dei mais ainda, por ser algo mais pessoal."

Forum: "Fiz as campanhas da Forum por 16 anos - quase metade da minha vida profissional. Tudo com pouquíssimo dinheiro e muita entrega. Era meu cartão de visita. A própria arte era feita no estúdio. E como tudo terminou... (Miro ficou sabendo do rompimento pelos jornais.) Eu não conseguia olhar no olho do Tufi nem ele no meu. Levei um bom tempo pra digerir, mas hoje tá tudo certo."

Editorial: "Sabendo quanto um anunciante paga por uma página de revista, fica claro o privilégio que é ter 10 ou 20 páginas com um editorial fotografado por você. Então é preciso ter o maior carinho com isso. Eu convivi com loucas, no bom sentido, como a Regina Guerreiro, que parava a foto enquanto o lenço que ela queria não chegasse. Aprendi com ela que é preciso ser persistente com o que a gente acredita. Hoje tá chato. Qual é a informação de um editorial que não é feito por uma editora de moda e sim por meninas que pegam um monte de roupa e levam pra celebridade fotografada escolher o que vai vestir? Que autoridade de moda tem uma celebridade?"

Era digital: "A fotografia tinha cheiro! Quando eu comecei, era mais calmo, havia prazo, havia dinheiro... Com a digital (Miro só comprou uma câmera digital em 2007) a rotina do estúdio mudou completamente. Antes, você tinha que deixar um cenário montado por quatro dias até o filme ser revelado e o trabalho ser aprovado pelo cliente. Hoje, a foto é aprovada na hora. Acabou a foto, acabou tudo."

Luz: "Acho que eu tenho mais cuidado com a produção do que com a luz em si. Eu faço a mesma luz há anos, muda muito pouco. Mas tenho cuidado com tudo, ajeito a gola da pessoa, ponho a mão nela. Uma vez estava fotografando o Aécio e fui arrumar a camisa dele. Ele me disse: "Miro, capricha porque eu quero arrumar uma namorada nova com esta foto." Isso eu aprendi com a Regina, ela arrumava até..."

Proteção: "Um dia uma menina disse que eu deveria agradecer a meu anjo da guarda. Eu nunca tinha feito isso! Minha vida mudou depois que eu comecei a agradecer."

Angústia: "Há 27 anos tomo remédio para síndrome do pânico. Dizem que síndrome do pânico é um processo de depressão, mas talvez seja angústia. Duas vezes achei que ia morrer e a Gisela me salvou."

QUEM É

MIRO

FOTÓGRAFO

Nasceu Azemiro de Souza Filho em julho de 1949, em Bebedouro, interior de São Paulo. Aos 19, veio para a capital sem saber o que queria fazer. Encontrou emprego como laboratorista, virou assistente e logo passou a fotografar. Em 1973, mudou-se para Paris onde foi "adotado" pelo diretor de arte Peter Knapp. De volta ao Brasil, seu trabalho em moda e publicidade virou referência de qualidade no mercado.

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