Mirisola lança romance abortado "O Herói Devolvido"

Pode parecer estranho, mas em meio ao lançamento do livro de contos O Herói Devolvido, da Editora 34,o segundo de sua carreira, o escritor Marcelo Mirisola diz estar fatigado. E, detalhe, culpa a literatura pelo esgotamento que o assola. "Envelheci, estou com olheiras e bolsas nos olhos; foram dez anos de loucura", contabiliza.Os anos a que Mirisola se refere são os dedicados efetivamente ao ofício da escrita. "Até 1989, eu não sabia de nada, nem sequer lia", revela, definindo a leitura de Pergunte ao Pó, de Jonh Fante, como fundamental para o início de seu trabalho como autor. "Mesmo assim, eu já era escritor antes de tornar-me escritor, entende?", prossegue. "Eu acabei encontrando voz própria para a minha literatura muito rápido, tem escritores que levam a vida inteira procurando-a; o grande problema é administrar essa voz."O primeiro livro, o elogiado Fátima Fez os Pés para Mostrar na Chopperia, de 1998, levou seis anos para ser escrito. "Enviei os originais para uma série de editoras e fui recusado por todas." A situação só foi revertida com a parceria entre o autor e a Editora Estação Liberdade. Mirisola teve de vender o automóvel para financiar parte da edição do livro. "A possibilidade do ineditismo era terrivelmente angustiante para mim; eu sabia do potencial do livro."Fátima Fez os Pés para Mostrar na Chopperia causou furor e, por conta da distribuição pouco abrangente, estabeleceu-se como obra cult. Já no prefácio, assinado pela poetisa, escritora e psicanalista Maria Rita Kehl, Mirisola, ele é comparado a Dalton Trevisan, Louis Ferdinand Céline e aos autores da geração beat norte-americana. Impressões compartilhadas também pela crítica literária na época. "Imagine eu era só um gordinho de óculos que não fez curso de inglês e nem comprou terreno no cemitério", ironiza. "Me colocaram com os escritores malditos, mas atualmente tenho tentado ler outras coisas."Porém, o próprio Mirisola reconhece que não tem conseguido desvencilhar-se de suas preferências estéticas, digamos assim, mais agressivas. "Na verdade, o que eu mais detesto é a literatura da sutileza; o escritor tem é de chutar o pau da barraca." Ele diz que instintivamente acaba procurando escritores extremados.Mirisola, como ele mesmo gosta de dizer, é um paulistano radicado em Florianópolis. Mais precisamente na Praia do Santinho, onde ele tem uma casa à beira-mar sem linha telefônica. Mas engana-se quem pensa que o escritor faz a linha recluso no litoral. "Moro lá por que a casa foi barata, gostaria mesmo é de morar em Santos; aliás, paisagem bucólica não me ajuda em nada." O autor garante que sua grande inspiração vem do modo de vida da classe média urbana. "Conheço bem essa classe média e adoro ridicularizá-la nos meus textos", diz ele definindo seu trabalho como "literatura do entrave".O novo livro é, na verdade, um romance abortado. O Herói Devolvido estaria em meio à possível narrativa de "Tereza para Amanhã". "Ficou uma droga, não consegui escrever o romance." O próximo projeto será então a conclusão de um romance? "Não tenho a mínima idéia, os meus concorrentes podem ficar sossegados pois eu não tenho projeto nenhum."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.