Miranda Otto UM PORTO PARA MIRANDA ATRIZ Entrevista

Atriz australiana fala sobre novo filme de Bruno Barreto, em que atua ao lado de Glória Pires

FLAVIA GUERRA / BERLIM, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2013 | 02h06

"É raro um filme em que as mulheres têm bons papéis tanto por sua beleza quanto por sua inteligência", diz Miranda Otto quando indagada sobre como recebeu o convite para estrelar Você Nunca Disse Eu te Amo, novo filme de Bruno Barreto, que integrou a mostra Panorama do Festival de Cinema de Berlim.

Miranda não exagera quando afirma que um dos grandes destaques do longa é justamente a inteligência das protagonistas. História de amor entre a poeta americana Elizabeth Bishop e a arquiteta urbanista e paisagista brasileira Lota de Macedo Soares (interpretada por Glória Pires), Você Nunca... enfoca não só o lado passional, mas também a genialidade de duas grandes artistas.

Tudo começa em 1951, quando Elizabeth, em busca de inspiração, decide viajar ao Rio e acaba se hospedando na casa da amiga de escola Mary (vivida por Tracy Middendorf) que, justamente, é a companheira de Lota. Da estranheza inicial que a tímida poeta provoca na expansiva Lota, a convivência entre as duas desperta uma paixão avassaladora.

Atriz de sucessos como O Senhor dos Anéis e Guerra dos Mundos, a australiana se diz surpresa com a recepção ao filme. "Quando recebi o e-mail do meu agente, com uma proposta de um filme que se passava no Brasil, na Itália, em Nova York, pensei: este convite não pode ser para mim. Deve ter vindo errado. Hoje agradeço por ter levado a sério. É um projeto muito especial. Foi muito lindo ver como as pessoas o receberam aqui em Berlim."

As cenas de amor entre você e Glória Pires são muito naturais. Como foi fazê-las?

É ótimo saber que ficou natural, pois tudo que eu não queria era que o amor entre duas mulheres fosse retratado de forma sensacionalista. Nós nos preocupamos em retratar duas pessoas em um relacionamento como qualquer outro.

O que você mais admira nelas?

Elas eram muito corajosas. Mas não acho que era algo consciente. Elas só queriam viver a vida ao máximo e não estavam com medo de serem quem eram de fato. E eram muito modernas. Mais até do que somos hoje.

O que a emociona mais nesta história? O amor, o talento, a

perda? Bruno Barreto diz que este é um filme sobre a perda.

Para mim, é sobre tudo isso. E me fascina muito observar como artistas vivem juntos, como a arte molda suas vidas e suas vidas moldam sua arte. Como superam a dor por meio da arte. Lota, por exemplo, lidava bem com o trabalho de Elizabeth. Já Elizabeth não lidava tão bem com o trabalho de Lota. Não gostava de ficar sozinha enquanto Lota trabalhava na construção do Aterro do Flamengo. Mas elas tentavam achar um equilíbrio e isso se refletia no trabalho das duas.

Como foi trabalhar com o

diretor Bruno Barreto?

Foi ótimo. Ele sempre soube muito bem o que queria da gente e, ao mesmo tempo, nos dava muita liberdade para trabalhar e criar. É do tipo de diretor que sabe ouvir e também sabe contribuir. Foi muito especial poder filmar esta história tão rara.

Bruno Barreto comentou que, nas sessões de teste, houve

surpresa dos espectadores

brasileiros com relação às cenas mais românticas. Como você acha que o público em geral vai receber estas cenas?

Acho que vai ser natural. A primeira impressão dos brasileiros pode ser de surpresa, já que a figura de Glória Pires é muito forte, mas depois se acostumam e passam a ver o filme naturalmente.

Como foi a experiência de trabalhar no Rio?

O Brasil é tão lindo. E isso se traduz nas pessoas. Os brasileiros têm um olhar forte sobre as coisas belas. De minha maquiadora à figurinista, passando pelo diretor de fotografia, todos tinham um olho treinado para a beleza. Assim como a natureza é sempre presente e nos passa a sensação de que o clima é relaxado e natural. Chegava a ser estranho porque, em geral, quando filmo em outros países, o relógio começa a contar já do primeiro segundo. Há sempre alguém me lembrando do pouco tempo que temos. Já no Brasil era o contrário. Sentia como se tivéssemos todo o tempo do mundo. No entanto, em alguns dias todos entravam em pânico porque tínhamos de correr ou não conseguiríamos filmar tudo a tempo.

Tipicamente brasileiro.

É! Mas eu entendi isso melhor quando alguém me disse que os brasileiros gostam de criar o caos, funcionam bem em situações extremas em que têm que tomar decisões rápidas. E que se divertem com isso. Estranhamente, isso funcionava e, em situações em que eu pensava que não ia dar certo, tudo acabava funcionando e eu me perguntava: "Como eles conseguem fazer isso?".

Conheceu bem os brasileiros?

Não tive muito tempo, mas algo eu aprendi e comprovei sobre a essência do brasileiro. Haviam me dito que o brasileiro é especial, com a capacidade de ser caloroso e afetuoso sem ser invasivo. Há um contato físico espontâneo e carinhoso entre vocês, que é lindo. É convidativo e faz com que nos sintamos de fato em casa. Isso é mesmo único.

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