Mirada: Vitória da integração

A ovação ao espetáculo La Razón Blindada, do Equador, sábado, confirmou a pertinência de Mirada - Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, em suprir a carência de vínculos artísticos em um território de vasto passado e escasso presente. Na mesma noite colheram aplausos os brasileiros de O Idiota, encenação paulistana da Mundana Companhia a partir de Dostoievski, os chilenos de Fiesta, os colombianos de Los Santos Inocentes e os bolivianos do Teatro de los Andes com La Odisea, adaptação do poema-saga de Homero.

Análise: Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2010 | 00h00

Encanto e perplexidade vieram da constatação óbvia de que países às vezes reduzidos a estereótipos (drogas, convulsão social) são culturalmente ricos. De 2 a 11 de setembro foi possível ver 31 espetáculos da América Latina, Portugal e Espanha. La Razón Blindada tocou o público com diálogo repleto de fantasia e humor absurdo entre dois presos políticos.

O texto evoca diretamente Dom Quixote, de Cervantes, mas tem traços de O Arquiteto e o Imperador da Assíria, do espanhol Fernando Arrabal e O Beijo da Mulher Aranha, do argentino Manuel Puig. O espetáculo linear em termos de cenário, iluminação, música e figurinos é sustentado por dois excelentes atores. Quando se descobre o motivo da extravagante conversação há um impacto suplementar.

À exceção das representações de São Paulo, Espanha e Peru, foi um festival sem maiores inovações formais. Policarpo Quaresma e O Idiota estão em temporada, mas os visitantes já partiram. Mirada teve salas repletas, filas de espera, encontros de artistas em seminários enriquecedores. Os palcos revelaram coisas lindas, cruas, violentas, divertidas ou até tediosas. O país homenageado foi a Argentina que apesar de sua poderosa tradição cênica, teve a vigorosa concorrência. Madri desembarcou com Urtain, relato da ascensão e queda de um popular boxeador basco-espanhol elevado à condição de herói da ditadura franquista. Representado em um ringue, o brilhante ator Roberto Álamo, Urtain levou os espectadores ao silêncio absoluto.

Do outro lado da cidade, em um edifício do século 19 imerso na penumbra, a criação do grupo Yuyachkani refez determinada fantasmagoria da realidade peruana nos moldes dos romances de Manoel Scorza. O mistério e complexidade dos Andes estiveram igualmente presentes na versão atual da Odisseia (La Odisea) que conduz Ulisses não mais à guerra de Troia, mas às fronteiras onde imigrantes clandestinos são caçados, roubados e mortos. Com sequências simplórias ao lado de achados de direção, ali estavam os valentes bolivianos. A Bolívia faz hoje importantes festivais em La Paz e aqui ao lado de Mato Grosso, em Santa Cruz de la Sierra. O diretor do Festival de Cádiz, Espanha, Pepe Bablé, se confessou admirado com eles.

A Argentina veio com sete espetáculos, três deles de autoria e direção de Daniel Veronese. A produção do dramaturgo, que tem gosto por paródias e autorreferências teatrais, desta vez não chegou a contagiar com suas reescrituras de clássicos da dramaturgia ocidental como Casa de Bonecas e Hedda Gabler de Ibsen. Mais provocante esteve Lote 77, texto e direção de Marcelo Mininno, um rito de masculinidade competitiva e traumas juvenis transcorrido em um curral e/ou matadouro.

O balanço é favorável ao conceito do festival como viagem transcultural ao imaginário ibero-americano. Tempo e espaço se estenderam na acolhida de idiomas aparentados. Sabe-se que tais mostras exigem cuidado no seu aperfeiçoamento e na fuga ao desgaste. Desta vez, houve interesse por temas político-existenciais e fez falta a investigação estética. Mirada, contudo, é uma aposta do Sesc nas descobertas das artes e o simbolismo de Santos como porto indica que sempre é possível outra navegação.

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