Minnelli e a sombra no sorriso do casal Liz/Burton

Antes de "Brangelina", o casal formado por Brad Pitt e Angelina Jolie, houve Burton e Taylor. Com esta chamada de capa, a revista Rolling Stone pegou carona na recente liberação, por Elizabeth Taylor, de cartas de amor que lhe foram escritas por Richard Burton, para retomar a história do casamento mais polêmico da história de Hollywood. Para início de conversa, não foi "um" casamento. Burton e Taylor casaram-se, e divorciaram-se, mais de uma vez, no papel. Eles faziam a delícia dos paparazzi nos anos 1960, quando foi feito Adeus às Ilusões.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2010 | 00h00

O filme é de 1965 e foi dirigido por Vincente Minnelli, com quem a jovem Liz havia feito O Pai da Noiva e O Netinho do Papai. Os filmes de 1950 e 1951 são estrelados por Spencer Tracy e Joan Bennett. No primeiro, o lendário astro se estressa porque sua garotinha, Liz Taylor, está para se casar. No segundo, porque ela está grávida e ele vai ser avô. Os dois filmes dispõem de excelente reputação (e foram refeitos com Steve Martin). Adeus às Ilusões, The Sandpiper no original, foi feito anos mais tarde, numa fase mais difícil da vida do autor.

Minnelli, o pai de Liza, construiu quase toda sua carreira na Metro, onde consolidou a reputação de grande diretor de musicais, embora tenha realizado também belíssimas comédias e (melo) dramas. Mas, no começo dos anos 1960, não apenas o gênero musical como a própria Metro sofriam as consequências da grande crise que assolava Hollywood. O cinema de estúdio entrava em colapso, o público, na onda das mudanças comportamentais que ocorriam no mundo, exigia filmes mais ousados. Neste quadro, a trajetória de Minnelli tornou-se ziguezagueante e ele chegou a filmar na Fox, na Paramount. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard observa que a habilidade de Minnelli continuava intacta. O cinema de estúdio é que estava em declínio.

O filme que agora sai em DVD foi formatado para o casal Taylor/Burton. Recapitulando - Liz era a maior estrela de Hollywood por volta de 1960, quando a Fox a convidou para fazer Cleópatra. Para se desembaraçar do projeto, ela pediu um salário impensável para a época - US$ 1 milhão -, que o estúdio pagou. A filmagem foi complicada por diversos fatores - os estouros sucessivos de orçamento, as complicações de saúde da estrela e, principalmente, seu romance "proibido" com Richard Burton, que fazia Marco Antônio. Os EUA ainda não haviam perdoado a atriz por haver "tirado" o marido de sua amiga Debbie Reynolds e ela já substituía Eddie Fisher pelo companheiro de elenco, também casado.

Foi um escândalo - e um fracasso de bilheteria -, mas o casal se instalara na mídia feito um furacão e Hollywood não perdeu tempo. Depois de Cleópatra, Taylor e Burton fizeram Gente Muito Importante, de Anthony Asquith, e Adeus às Ilusões. Logo vieram Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, de Mike Nichols; A Megera Domada, de Franco Zeffirelli; e os filmes de Joseph Losey, nos quais trabalharam em dupla, ou separadamente (Cerimônia Secreta, O Homem Que Veio de Longe, O Assassinato de Trotsky).

Em Adeus às Ilusões, Liz faz pintora de comportamento libertário que subverte a vida do pastor religioso Burton. Ela tem um filho, cuja guarda está sendo contestada na Justiça. Numa cena, Liz participa de uma orgia na praia (com, entre outros, Charles Bronson). Em busca de proteção "interior", veste um poncho. Minnelli tinha o dom do detalhe, sabia usar o cenário, a cor e dirigir os atores. Poucos críticos levaram Adeus às Ilusões a sério, como a maioria também não levara a Cleópatra de Joseph L. Mankiewicz. É um belo filme, mais denso e profundo do que parece - foi coescrito por Dalton Trumbo - e a trilha é embalada pela canção The Shadow of Your Smile, que ganhou o Oscar.

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