Juvenal Pereira
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Ministra da Cultura: gargalhadas e lágrimas em São Paulo

Ana de Hollanda se impacienta ao falar sobre direito autoral na inauguração da Biblioteca Mário de Andrade

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

26 de janeiro de 2011 | 11h42

Vaias, trovões, aplausos, nervosismo, impaciência, gargalhadas e lágrimas. Em sua primeira visita a São Paulo depois de ser empossada ministra da Cultura, Ana de Hollanda desfilou um rosário de sentimentos díspares em seis horas de atividades públicas, entre o centro de São Paulo e o bairro de Pinheiros.

Na reinauguração da Biblioteca Mário de Andrade, no Centro, Ana se viu no meio da saia justa das vaias e das palavras de ordem destinadas ao prefeito Gilberto Kassab, seu anfitrião no evento. "Ê, Kassab, vai pegar busão!", berravam os manifestantes no grande hall da biblioteca, protestando contra o aumento que elevou a passagem de ônibus para R$ 3 na capital.

"Podem existir diferenças políticas, mas a cultura aproxima. A cultura é de todos, é do cidadão", discursou Ana, num púlpito dividido com o governador Geraldo Alckmin, o prefeito Kassab, o secretário de Cultura, Carlos Augusto Calil, o ex-candidato derrotado à presidência, José Serra, Hugo Possolo, diretor e ator do grupo Parlapatões, o historiador Marco Antonio Villa, o ex-ministro Celso Lafer, e mais uma dezena de autoridades prensadas entre as portas dos fundos da biblioteca e o público. Uma chuvarada com trovões estrondosos chegou a interromper momentaneamente alguns discursos, como o de José Serra.

No meio da sua visita às instalações revitalizadas da biblioteca, Ana demonstrou nervosismo e impaciência ao ter de explicar sua decisão de tirar do site do Ministério da Cultura as licenças Creative Commons, fato que gerou gritaria entre os militantes da cultura digital - chegou a ser chamada de "Ministra do Ecad" no Twitter por ter usado argumentos conservadores em defesa do copyright. "Eu totalmente sou a favor da cultura digital. Vamos usar os Pontos de Cultura para disseminar as culturas digitais", reagiu. "Eu não represento o Ecad. Eu sou associada, como tantos outros artistas. Todo mundo tinha de se associar para receber seus direitos. No momento certo, nós vamos discutir os direitos autorais, mas não é agora", afirmou, encerrando a conversa. Sobre o Creative Commons, disse apenas: "O que aconteceu é que não tinha contrato que justificasse".

De concreto, a ministra anunciou que vai propor uma parceria imediata entre a Biblioteca Mário de Andrade e a Fundação Biblioteca Nacional, vinculada ao Minc. "Ela vai ser uma ministra extraordinária. É um presente para o Brasil", entusiasmou-se a escritora Lygia Fagundes Telles, que também fazia questão de contar aos que a interpelavam a história de como conheceu o autor que dá nome ao local. "Conheci Mário de Andrade em 1944. Eu era uma mocinha de boina. Tomei chá com ele na Confeitaria Vienense. Ele me perguntou o que estava tocando e eu disse: 'É o Danúbio Azul'", divertia-se. "E agora, os meus livros estão aqui. Então eu estou salva".

Depois da solenidade, a ministra Ana de Hollanda rumou para o show que a irmã, Miúcha, faria no início da noite no Sesc Pinheiros, acompanhada da Orquestra Sinfônica Municipal, com 50 músicos no palco. "Você tem uma irmã aqui. Ela é cantora, mas está ministra", disse o regente Marcelo Ghelfi à cantora Miúcha. "É a primeira vez em 43 anos que há um ministro da Cultura em um concerto onde eu estou", afirmou Ghelfi. Ana levantou-se, sob aplausos.

A ministra assistiu todo o show na fila F, no meio do público de mais de mil pessoas que lotou o Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, para assistir ao concerto. Riu com a plateia quando a irmã errou a letra de Eu te Amo ("Meu paletó amassa o teu vestido"), do seu irmão Chico Buarque, e da justificativa do maestro ("Seu irmão tem letras enormes. Se nem ele decora, porque você tem que decorar?"). Chorou escondido - mas o fotógrafo pegou - depois da interpretação de Amei Tanto, de Baden Powell e Vinicius de Morais. Miúcha também esqueceu as letras de Anos Dourados e Todo o Sentimento, ambas do irmão Chico Buarque.

Depois, Ana foi ao camarim, no qual encontrou, além de Miúcha, mais um irmão, Sergio Buarque de Hollanda. A empresária Milu Villela, do Banco Itaú, lembrou na saída uma história secreta: Milu Villela foi professora de Bebel Gilberto, filha também cantora de Miúcha, nos tempos em que a empresária era sócia de um empreendimento chamado Colégio Caracol, que aplicava o método de Piaget. "Vou organizar encontros da ministra com empresários e gente da cultura aqui em São Paulo", anunciou.

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