"Ministério não existe para fazer cultura"

Assim que o presidente eleito anunciaroficialmente seu Ministério, Gilberto Gil deverá chegar à pastada Cultura sem idéias preconcebidas ou planos estruturados.Espera articular com as diversas forças que atuam no setor etambém com as forças políticas para então traçar suas metas. Foio que ele disse à imprensa na sede de sua empresa, a GGProduções, na coletiva em que anunciava o show que fará no diade Natal na Rocinha, para o lançamento da Casa de Culturadaquela favela. "A função do Ministério não é produzir cultura e simfazer com que se faça cultura", avisou. Ele ressaltou: "Lulaainda não oficializou meu nome e ninguém é ministro sem sernomeado pelo presidente." As palavras de Gil combinam com seu pedido a artistas,cientistas e intelectuais que não fizessem muita cobrança aopresidente. Isso aconteceu entre o primeiro e segundo turno, numencontro/show no Canecão do Rio. O próprio Lula, ainda candidato retrucou que queria pressões sim, pois elas o fazem agir. "Oque eu quis dizer na época é que há uma expectativa muito grandecom relação ao Lula, além do que é possível a qualquergovernante realizar. Há um excesso de demandas e esperanças quepodem se frustrar. Estando no governo, continuo achando omesmo", admitiu. Ele disse ainda que não sabe como conciliará suacarreira com a atividade no Ministério. "Vou me pautar primeiropela lei, que é o estabelecido, e depois pelo costume. Essascoisas têm de ser avaliadas a partir da interpretação daconsciência das pessoas e do jogo consuetudinário, que muda comas circunstâncias." Gil considera natural as resistências a seu nome dentrodo PT e entre artistas e produtores culturais, pois nunca viveusem elas. "Qual o problema? Isso não é novidade. Sempre houveresistências ao artista, ao homem. Tem gente que gostou da minhaindicação, tem gente que não gostou, isso acontece. Teve atéquem criticasse a indicação da senadora Marina Silva para oministério do Meio Ambiente", comentou. "Faz parte do jogopolítico o diálogo entre as várias tendências e correntes,através da imprensa, de encontros. As pessoas se aborrecem ounão e o importante é que se articulem. " De sábado, quando se encontrou com Lula em Brasília, atéhoje, ele conversou com o ator Sérgio Mamberti e com oex-secretário de Cultura do Distrito Federal, Hamilton Pereira,que coordenaram a elaboração de uma proposta do PT para acultura. Gil afirmou que a participação deles na sua gestão dacultura será fundamental e que o documento elaborado por eles (eum grupo de intelectuais e artistas) dão as linhas-mestras daatuação do Ministério. "Eventualmente há alguns pontos e sugestões que serãoanalisados", admitiu. "É importante saber que o Ministério nãosou eu, há um plano a ser cumprido. Quem está à frente doMinistério é o que menos importa se se pensar assim." Apesar de não ter planos determinados, Gil garante que afalta de verbas para o Ministério da Cultura (R$ 170 milhõesvindos do orçamento e cerca de R$ 250 milhões através derenúncia fiscal, meta que, por sinal, nunca foi atingida, desdea criação das leis de incentivo, a Rouanet e a do Audiovisual)não será empecilho para a atividade de sua pasta. "Em casa depobre se vive, se produz e se chega aonde se quer. Assim também,dentro do Ministério da Cultura, com muito ou poucos recursos,vamos fazer o que for preciso." Mas Gil não quis citar nenhuma ação concreta. Preferiufilosofar sobre o ato de governar. "Quem chega não tem de mudartudo. Governar é continuar, é corrigir encaminhamentos, terminaro que foi começado e iniciar o que ainda não foi feito",explicou. Ele não quis elogiar ou criticar Francisco Weffort, oministro da Cultura dos oito anos de Fernando Henrique Cardoso."Não tenho uma opinião sobre ele, que termina um governodesgastante, como são todas as administrações que duram tantotempo. Ele fez o papel dele e agora entram outras pessoas, comomodos de agir diferentes." No entanto, Gil deixou claro que não vai ignorar asreivindicações que diversos grupos de artistas, divididos porsetores de atuação, oficial ou oficiosamente têm discutido aolongo dos últimos anos. "Esse encaminhamento deve continuar e éa partir daí que veremos o que fazer", disse Gil. Ele sabe quenão contentará a todos e nem se propõe a tal. "Não me preocupocom esse enfrentamento e sou uma pessoa com muita tolerância.Não brigo nem me ofendo fácil porque acho que o espírito dohomem é superior a tudo e esse espírito eu tenho em mim." Rocinha - O convívio de Gilberto Gil com os moradores daRocinha vem de um ano e meio atrás, quando ele instalou suaempresa, a GG, num casarão no alto da Gávea, na zona sul. Comoele mora em São Conrado e a favela fica entre os dois pontos,foi inevitável o contato. "Tudo começou em conversas devizinhos e, quando a prefeitura tombou o casarão para construiro Centro Cultural da Rocinha, achei que estava na hora de darminha contribuição", contou. "Além de meu show, que teráparticipação de Caetano Veloso, do meu filho Bem e de gruposdaqui."

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