JB Neto/Estadão
JB Neto/Estadão

Ministério da Cultura elabora Plano Setorial da Moda, que vai criar estratégias para setor

A ser anunciado ainda neste ano e aberto à consulta pública, está em desenvolvimento pelo Colegiado Setorial da Moda

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2013 | 23h59

Se há uma tendência na moda brasileira hoje, é a da discussão se é ou não cultura. Ainda que o debate tenha se tornado um clássico do setor – há tempos, profissionais da área debatem políticas de incentivo à área e até se reuniram com a ministra da Cultura, Marta Suplicy, no final de 2012 para pedir que desfiles fossem apoiados por meio da Lei Rouanet –, só agora o tema ganha atenção de diversos setores da sociedade.

A discussão se aqueceu no final de agosto, quando os estilistas Pedro Lourenço, Ronaldo Fraga e Alexandre Herchcovitch tiveram aprovados seus projetos para captação de recursos para apresentar seus próximos desfiles por meio da Lei Rouanet. A questão até então mais restrita ao mercado fashion se tornou nacional. Houve quem comemorou, defendendo a moda como expressão cultural. Houve quem se indignou e questionou o método de avaliação dos projetos. Já para a maioria dos profissionais do setor, a questão não se encerra quando o assunto é o incentivo à moda como expressão cultural, mas sim como cadeia produtiva que une diversos setores, como a indústria têxtil, a de comércio, artesanato e a cultural.

Parte da polêmica pode ter fim com a criação do Plano Setorial de Moda, que deve ser anunciado ainda este ano e aberto à consulta pública. Atualmente em desenvolvimento pelo Colegiado Setorial de Moda, o plano pode, em uma iniciativa inédita, estabelecer regras claras para o apoio a projetos de moda. Órgão ligado ao Conselho Nacional de Política Cultural e pertencente ao Ministério da Cultura, o Colegiado foi criado em 2010 com a função de debater, acompanhar e definir diretrizes e estratégias para o setor da moda brasileira.

Composto por cinco representantes do poder público e quinze civis (entre eles estilistas, acadêmicos e profissionais), tem como um de seus maiores desafios a criação do inédito Plano Setorial de Moda. “A questão não é se moda é cultura ou não. Isso já é certo. É preciso discutir a quem e como dar o incentivo. Não se questiona se um desfile seria expressão cultural, mas até que ponto seu eixo principal é mais ligado ao setor industrial ou cultural?”, declarou Lucas da Rosa, professor de Moda da Universidade de Santa Catarina e membro do Colegiado Setorial de Moda, em conversa com o Estado.

Segundo Rosa, o plano deve começar a funcionar ainda em 2014, tornando-se um conjunto de leis e normas que vão balizar pelos próximos dez anos o setor de moda. “Estamos fazendo tudo com cuidado para que não haja mais confusões. O Plano Setorial não está pronto ainda e não vai impor limites, mas vai dar indicativos do que se aproxima mais da cultura e da arte e o que é mais industrial”, comenta Rosa. “O projeto do Pedro vai ser 100% captado por meio das leis culturais. Mas será que todo desfile precisa ser captado pelo viés da cultura? Ele pode ter uma pequena parcela, mas não todo dinheiro captado pelas leis de cultura”, comentou professora Francisca Dantas Mendes, da Universidade de São Paulo.

Entre os principais objetivos do Plano Setorial de Moda, está o incentivo a novos criadores, à produção em pequena escala, à moda sustentável, artesanal e regional. “Estamos refinando e focando em eixos de trabalho, como ‘moda e educação’, ‘moda e formação’, ‘moda e difusão’. No caso do artesanato, em vez de descaracterizá-lo, vamos aproximá-lo mais da moda. Nosso viés é o setor fashion como expressão cultural, não como industrial. E, a partir daí, os projetos de incentivo poderão ser híbridos, e captar recursos junto a órgãos como o Sebrae e a Apex”, explicou Rosa.

Por falar em outros setores, a convergência de recursos é outro tema polêmico. Afinal, para a grande maioria dos profissionais do setor fashion e têxtil, a discussão também diz respeito à moda como política pública que envolve todas as etapas da produção. “A indústria têxtil, a mão de obra, a educação de moda. Toda a cadeia produtiva precisa de incentivo”, diz Francisca.

Um dos maiores desafios da equipe que está delineando o Plano Setorial é a comparação com modelos internacionais, que conseguiram, por diversos meios, desenvolver seu setor de moda tanto como indústria criativa quanto mercado. Países como Inglaterra, EUA, Japão, Itália, França e até China e Índia são base de comparação e exemplo.

"Não há nada parecido com o que estamos fazendo. Em geral, órgãos que incentivam a produção do setor são ligados à indústria têxtil. Alguns têm participação dos ministérios culturais”, comenta Rosa. “Os EUA têm o Council of Fashion Designers, que é formado por diversos profissionais”, comenta o estilista Carlos Miele, que desfila há mais de uma década suas coleções na Semana de Moda de Nova York. “O modelo americano, do livre mercado, premia talentos e facilita as etapas da criação e comercialização.”

A pesquisadora de moda Carol Garcia observa que tanto na Itália quanto na Inglaterra, a sociedade é bastante participativa e há um amplo envolvimento, inclusive, do setor acadêmico. “Eventos de moda sempre envolvem todos os segmentos interessados nas indústrias criativas como um todo.”

Já a estilista Lena Santana, formada em moda pela Surrey Institute of Art and Designs de Londres, vê na educação de moda no Brasil um dos maiores entraves. “Antes de pensarmos no escoamento, na mídia, temos de pensar na educação e formação. Muitos de meus alunos não sabem nem mesmo costurar”, comentou Lena, que voltou há pouco ao Brasil e dá aula de moulage na PUC-Rio.

Lena vê na participação de feiras internacionais um dos principais pontos de incentivo à cadeia produtiva. “Tinha incentivo do British Fashion Council para participar de feiras como pequena produtora, pois tenho passaporte inglês. E observava os brasileiros. Temos criatividade, mas muitas vezes, nosso acabamento fica a desejar, não conseguimos cumprir prazos, nem ser competitivos em relação aos preços dos chineses e indianos.”

Para melhorar esse quadro, a Associação Brasileira de Estilistas acaba de criar a Academia ABEST de Formação Empreendedora, que oferece cursos de profissionalização no setor e tem como grande trunfo investir no valor agregado da moda brasileira. “Investimos no lifestyle e nas características únicas e reconhecidas de seus produtos finais”, declarou Valdemar Iódice, atual presidente da entidade. / COLABOROU MARIANA BELLEY

“É preciso haver investimento”, diz estilista Amir Slama

“Nossa moda leva o lifestyle brasileiro para o mundo. Quando se incentiva um estilista nosso a mostrar suas coleções, incentiva-se nossa criatividade. Chegar ao mercado internacional em igualdade com outros mercados é difícil. A competitividade é grande. Tem de haver apoio, mas não deve ser para a vida toda. Deve existir até que se ganhe maturidade e se possa caminhar sozinho.”

NO MUNDO

Estados Unidos

No país, o livre mercado é a mola propulsora do setor fashion. Como órgão oficial que incentiva principalmente jovens criadores e o intercâmbio entre as áreas, há o Council of Fashion Designers of America, organização não governamental e não lucrativa formada por 450 designers.

Reino Unido

O British Fashion Council reúne profissionais de diversas áreas (na foto, look de Lena Santana). Seu objetivo é promover os estilistas britânicos no exterior, organizar a London Fashion Week, o British Fashion Awards e incentivar a educação em moda e sua relação com a indústria têxtil.

Itália

A Camera della Moda Italiana defende o Made in Italy, valorizando seu modo ‘criativo-manufatureiro’, além da originalidade, a pesquisa, e uma velocidade mais humana e menos automática de produção. Por meio de parcerias internacionais, promove o trabalho de jovens estilistas.

França

A Fédération Française de la Couture du Prêt-à-Porter, criada em 1973, engloba diversas entidades e tem como objetivo não só normatizar a indústria da moda, como incentivar novos talentos, difundir a moda francesa no mundo e estabelecer parcerias internacionais.

Brasil

Formada por estilistas e profissionais da área, a ABEST tem o objetivo de fortalecer as exportações e a internacionalização da moda brasileira. Valoriza a formação, o design autoral. Atualmente conta com 80 marcas de todo o País e exporta produtos para 66 países.

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