MINIMALISTAS

Álbum triplo das irmãs Labèque comprova que o movimento abriu mais espaço para o pop

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2013 | 02h10

"Quando vi e ouvi Donna Summer pela primeira vez, simplesmente ri. E falei: é exatamente o que nós fazemos!" Esta surpreendente constatação foi feita por Philip Glass, um dos papas do minimalismo americano, movimento pluriartístico dos anos 60, que na música explodiu com a obra In C, de Terry Riley, de 1964, e fez da repetição o seu vértice criativo fundamental. Negação feroz das vanguardas radicais europeias, o minimalismo não só se aproximou, como se apropriou da "pobreza" harmônica e do pulso rítmico regular das músicas populares.

Glass virou "pop", invadiu o reino das trilhas sonoras para o cinema; seu parceiro Steve Reich foi o primeiro a usar quase imperceptíveis defasagens entre temas simples repetidos "ad nauseam" para criar dissonâncias leves. E Riley, bem, Riley foi o rei da imobilidade. Seu In C, ou "Em Dó", é o primeiro clássico do minimalismo: a duração e a instrumentação são indeterminadas. Consiste em 53 pequenas frases melódicas, repetidas segundo a vontade dos músicos.

Como previu Glass ao ouvir a rainha da música disco Donna Summer, o minimalismo é uma espécie de "espelho erudito" da sociedade pós-industrial e de massa americana. Em seu livro Repeating Ourselves (Ed. Universidade da Califórnia, 2005), Robert Fink afirma que o minimalismo é o reflexo de uma sociedade que ama a repetição e faz dela o seu eixo na economia, cultura, comunicação... e na música.

Esta proposta mais acessível a fatias maiores de público atraiu nomes menos comprometidos com a criação mais radical contemporânea. Ou, em outras palavras, instrumentistas mais consolidados como superstars da música erudita atual. É o caso das irmãs francesas Labèque: Katia (63 anos em 11/3) e Marielle (61 em 6/3). Elas explodiram internacionalmente nos anos 80, quando sua gravação de uma versão a dois pianos da Rhapsody in Blue de Gershwin superou meio milhão de cópias vendidas.

Nas últimas três décadas, já fizeram de tudo, do Bolero de Ravel à música pop, crossovers em penca e o repertório tradicional. Agora, lançam um álbum triplo pelo selo KML Recordings, Minimalist Dream House. A ideia nasceu em 2011, quando as Labèque participaram do Festival 50 Anos de Minimalismo em Londres, projeto capitaneado por um compositor e especialista no tema, William Duckworth. O arco histórico começa por In C e chega ao pós-minimalismo atual, em que a repetição é menos visível e a "inclusão" das músicas pop mais manifesta. Duckworth dá atenção especial aos reflexos minimalistas na música pop.

O primeiro minimalista. Tudo isso cria um painel abrangente para quem deseja saber o que é o minimalismo musical. Sutil, Duckworth incluiu Vexations, peça de 1893 de Erik Satie construída sobre um tema de baixo e quatro/cinco acordes. Cabe em meia página de partitura e leva a seguinte instrução: deve ser repetida 840 vezes, o que dá algo entre 16 e 20 horas (há uma versão na internet, mas ninguém aguenta mais do que 5 minutos: http://www.youtube.com/watch?v=gImDzmNuEDA). O manuscrito foi descoberto por John Cage, o mais radical criador musical do século 20, muitos anos depois da morte de Satie, em 1925, e faz dele o primeiro minimalista. Vexations, na versão das Labèque, tem razoáveis 15 minutos. Em seguida, uma alma gêmea de Satie, a peça Four 3, de Cage, 21 minutos de dois pianos em acordes plácidos e um chocalho perene.

O rótulo "minimalismo" aplicado à música de Reich, Glass e Riley (estranhamente, não há nenhuma peça de Reich; só pode ser porque Reich brigou com Glass) foi cunhado pelo compositor britânico Michael Nyman, conhecido por suas trilhas para o cineasta Peter Greenaway. As Labèque tocam suas Water Dances, de 1984, feitas para o documentário de Greenaway Making Splash, sobre nado sincronizado. É um junto-e-misturado de moldura barroca com energia pop e harmonia românticas.

Os Quatro Movimentos de Glass, de 2008, são mais do mesmo. O mais surpreendente CD é o segundo, que mostra um belo Arvo Pärt intitulado Hymn to a Great City, peça de 1984 dedicada a NY, e explora os reflexos do minimalismo na música pop. Lá estão versões inesperadas, com uma ou outra das Labèque integrando bandas pop, de clássicos como In Dark Trees, de Brian Eno, Nanou2 de Aphex Twin, Pyramid Song do Radiohead, e Ghost Rider do Suicide.

Minimalist Dream House quer provar a afirmação inicial do encarte: "Ser vanguarda musical nos anos 1950 era ser difícil. Mas não no fim dos anos 1960, quando um grupo de beatniks norte-americanos derrubou as verdades musicais da Europa do pós-guerra". Mostra-se mais como terceira via, uma alternativa que desvia, de certo modo, do desafio. Prova, sem querer, que o musicólogo Robert Fink tem razão.

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