Minimalista, refinado, mas também um desafio, pela ousadia

Vamos partir do princípio de que Como Esquecer é bom, muito bem-feito e interpretado. Gostar ou não, vai depender de cada personagem, porque a natureza da personagem de Ana Paula Arósio é especial e a diretora Malu de Martino não facilita as coisas para o espectador. Como a própria atriz reconhece na entrevista, Júlia, a professora de literatura que encarna, radicaliza a dor do sofrimento de ter sido abandonada pela companheira.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2010 | 00h00

Seria fácil transformar Júlia numa coitadinha, fazer com que o espectador tivesse pena dela. Mas a atriz e a diretora seguiram o caminho mais árduo. Júlia chega a ser irritante. Ela foi feita para incomodar o público. Júlia recusa muletas, até a ajuda que lhe oferece o amigo. Diante da promessa de um novo relacionamento, ela hesita - como Ana Paula explica, existem outras opções e uma delas é a de ser sozinho(a), para se encontrar interiormente.

Como Esquecer trata disso. Tem cenas ousadas - a masturbação de Júlia - e o público masculino talvez se delicie com o voyeurismo de entrar nesse banheiro onde a protagonista busca seu prazer solitário. As mulheres poderão ter sua vingança. Afinal, Ana Paula Arósio, uma das mulheres mais belas do Brasil - do planeta -, está desglamourizada, reduzida à sua condição de simples mortal. Mas é só pelo espaço do filme. Com o cabelo cortado à garçonnete, a bela voltou a ser deusa nas pré-estreias no Rio e em São Paulo.

Como Esquecer realmente marca uma evolução, um momento de decisão na carreira de Malu de Martino. O filme apresenta pesquisas visuais e sonoras muito interessantes. Ao mesmo tempo que o relato é sombrio, existem essas cenas dos filmes domésticos que retratam a felicidade de Júlia e Antônia (a ex), em Londres. É uma felicidade fora de esquadro e de cores vivas que desestabiliza o relato. A própria Malu não poupa elogios à diretora de fotografia Heloisa Sanchez nem ao montador Pedro Rossi.

Conta que filmou muito e ele, aproveitando uma ausência momentânea da diretora, radicalizou, cortando muito e propondo uma versão quase minimalista do material rodado. Malu reintegrou muita coisa ao relato, mas, na essência, não teve problemas para se desfazer de cenas que achava muito bem logradas. "Menos" vira "mais" em Como Esquecer.

O filme se constrói por aí, com estudada economia e com direito a Elis Regina cantando a dor do (des)amor. Ana Paula Arósio incomoda, ou é a personagem que incomoda, mas a atriz serve tanto a essa Júlia que o espectador se esquece da estrela, assistindo ao dilacerante espetáculo dessa mulher que sofre. É a verdadeira ousadia do filme. Murilo Rosa é ótimo sem necessidade de caricaturar seu gay. Na entrevista abaixo, a diretora reconhece o desafio. Ela não fez Como Esquecer visando ao público gay, mas os heteros vão precisar vencer sua resistência e o público GLST também vai precisar querer se ver na tela. Em ambos os casos, qualidades não faltam para tornar Como Esquecer um programa atraente.

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