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Minimalismo nas formas e cores

Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, exibe quase seis décadas de trabalho da gravadora Anna Letycia

ROBERTA PENNAFORT / RIO , O Estado de S.Paulo

19 Julho 2012 | 03h11

RIO DE JANEIRO - "Gravura nunca deu muito ibope." Quem diz, sem nenhum tom lamentoso, é a artista Anna Letycia, 83 anos em setembro, 58 dedicados às gravações, com passagens por bienais mundo afora e individuais frequentes. "Lembro de (Oswaldo) Goeldi (seu professor de xilogravura nos anos 50) não vender nada. Suas primeiras exposições foram em lojas de móveis. Hoje, ele é valorizado." A possibilidade de apelo comercial nunca foi preponderante nessa prolífica e apaixonada trajetória, iniciada nas aulas com Iberê Camargo no Instituto Municipal de Belas Artes, no centro do Rio, cidade para a qual a menina de Teresópolis, na Serra Fluminense, viera com a família aos 15 anos. Só foi aceita depois de passar num teste de desenho. Nesta terça-feira, 17, o Museu Nacional de Belas Artes abriu uma retrospectiva de sua carreira, com obras desde a década primeira, quando saíam de suas chapas de cobre imagens figurativas, até o século 21. Em versão mais ampla, a mostra passou em 2008 pelo Instituto Tomie Othake.

"Quis incluir obras novas para não pensarem que era uma mostra póstuma. Estou viva! Mas deve ser a última exposição da minha vida. Dá muito trabalho", Anna avisa. No Rio, a última panorâmica havia sido em 1996, no Paço Imperial.

A visita à sala Bernardelli do MNBA mostra que os animais (tatus, formigas, lembranças de uma casa com quintal e cheiro de terra), as plantas e as naturezas-mortas foram aos poucos se vertendo em formas abstratas. Em 1957, fez a única figura humana. A amiga Nise da Silveira, fundadora do Museu de Imagens do Inconsciente e pioneira no uso da arte como terapia, achou que fosse ela, dada a presença de gatos em seu colo. Não era.

Em 1959, criou o primeiro de seus caracóis - uma marca da obra -, que nesta exposição podem surgir mais ou menos desconstruídos. Depois apareceram as caixas, quase sempre em perspectiva. São dois símbolos da dualidade exterior/interior, duas propostas de mostra/esconde. "Têm a ver comigo. Sou muito introvertida, não gosto de me mostrar. O tatu, depois que saiu muito da toca, deixou de me interessar", compara ela.

"Além de experimentar e inventar técnicas, eu experimentava os assuntos. A gravura é sedutora, obriga a fazer tudo de determinada maneira, dá método. Tem que ter professor, e eu aprendi tudo com Iberê, um professor apaixonado, que gravou até morrer", recorda.

As 80 peças, inclusive chapas que serviram de matrizes - "é uma exposição didática" -, foram organizadas por Anna e o assistente Ricardo Queiroz, com quem trabalhou na oficina de gravura do Museu do Ingá, em Niterói. Estão dispostas em ordem cronológica.

Não há muitas cores além dos terrosos, os verdes fechados, os crus; o supercolorido não é de seu feitio, nem se presta ao trabalho com as chapas. Outro traço visto por toda a sala é um certo minimalismo gráfico.

As obras mais antigas estavam no apartamento da Urca onde Anna mora há 40 anos. "Há uns três", ela só produz pinturas ali. O desenvolvimento das gravuras é no museu de Niterói. Apesar de disposição - os 83 anos mais parecem 73 -, Anna não tem mais vontade de dar cabo de todo o processo. Prepara as chapas para que outro termine a impressão. "Não dá mais para ser como antes. A gravura você só vê o resultado quando termina, não é como a pintura. Se não ficar bom, tem que refazer tudo."

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