Minicontos cariocas

Na semana passada, no trem lotado, entrou um soldado pra falar de terrorismo – disse a motorista de ônibus para uma passageira. 

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2016 | 02h00

A conversa foi ouvida por um amigo a menos de uma semana da Olimpíada.

– O que ele disse? – perguntou a interlocutora.

– Falou que se a gente visse alguém com aparência estranha ou alguma bolsa largada sem dono no chão, era para avisar os policiais que estão nas estações – respondeu.

A amiga falou de sua preocupação com atentados durante o evento e a motorista continuou: – Pois é. Mas teve um cara que gritou: “Porra, meu amigo, aqui dentro a gente não tem espaço nem pra respirar, quanto mais para olhar pro chão ou ver se tem alguém estranho. Avisa pra esses terroristas botarem a bomba no ramal Santa Cruz, porque no Japeri já tá foda sem bomba”. 

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Uma das coisas mais legais do Rio são os vendedores ambulantes dos trens e ônibus, que, infelizmente, estão mais raros durante os Jogos. Alguns fazem pole dance nos balaústres para ajudar a vender seus produtos, que vão de lâmpadas de boate até rádios AM/FM em formato da porquinha Peppa. Quem embarca no trem sem ter almoçado não precisa se preocupar, pois lá dentro há uma vasta oferta de paçoca, pipoca, batata, polvilho, “pele” (Baconzitos), água, cerveja e bala. 

Um dos vendedores repetiu uma frase que achei tão bonita, mas tão bonita, que será talvez o título do meu próximo romance. Ele abriu caminho entre os passageiros, segurando um gancho cheio de doces, enquanto anunciava: – Cinquenta é o tijolão da bananada. 

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Homem em situação de rua para defensor público federal, a respeito da higienização promovida pela prefeitura durante a Olimpíada: “Eu me sinto como o filho deficiente que vai ter uma festa em casa e os pais correm para esconder”. 

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Na feirinha noturna, no canteiro central da avenida Atlântica, dois sujeitos conversavam sobre aparelhos de exames de hospitais. Um deles deu o seu parecer: – A única coisa que dá pra fazer com essas máquinas é vender para o exterior. Para consertar aqui tem que levar em técnicos autorizados, e aí eles descobrem fácil que é roubado.

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No portão do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, uma mulher em situação de rua pedia esmola. Era uma tarde gelada de sexta e a temperatura caía mais e mais. De repente, depois de receber a dica de algum passante, mudou o discurso. Em vez de “moço, tem um trocado?”, passou a perguntar: – Moço, tem bolo de fruta? 

Tomada pela expectativa, começou a se concentrar nos estudantes que saíam. E repetia, firme: – Eu sei que tá tendo bolo de fruta aí dentro. Você sabe em que sala tá tendo bolo de fruta? Me traz aí um pedaço.

Anoiteceu, e nada de aparecer o acepipe. Eu já estava indo embora quando ouvi pela última vez: – Gente, me dá um pedaço de bolo de fruta, pelo amor de Deus.

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