Minha pátria onde canta a Vuvuzela...

Não deu outra. O telefone tocou e eu já sabia que era o Nelson Rodrigues - o velho aparelho de ebonite preta soa melodioso como uma trombeta de arcanjo, quando vem do céu...

Arnaldo Jabor, arnaldo.jabor@estadao.com.br, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2010 | 00h00

- Puxa vida, Nelson, me abandonou, hein!...

- Rapaz, está havendo uma grande polêmica aqui no céu... Vou falar baixo para Ele não ouvir: Deus não sabe mais o que é o Bem ou o Mal. Fica dizendo: "Antigamente era fácil, dez mandamentos, inferno e céu - agora esta globalização sem vergonha e sem ética. E me misturam até com Alá"...

Cá entre nós, o Senhor anda maltratando o pobre do Hegel que está exalando cava depressão: "Hegel... você é que criou esta expectativa de racionalidade... deu nisso! - todo mundo errando em nome do Bem!" Já o Nietzsche virou o seu peixinho, é Frederico pra cá, Frederico pra lá... chegou a torcer pela Alemanha... é... caso sério...

- Eu sabia que você ia ligar sobre a derrota do Brasil, Nelson.

- A derrota é um grande momento de verdade. Só diante da vergonha é que entendemos nossa miséria. Num primeiro momento, queremos encontrar uma explicação para o fracasso, mas fracasso não se improvisa - é uma obra calculada, caprichada durante meses, anos até. Não adianta berrar no botequim que o Dunga é uma besta ou que o Felipe Melo é um perna de pau. Não. Nosso fracasso começou antes. Foi uma nova maneira de perder. Em 50 éramos a pátria de chuteiras; em 2006 éramos chuteiras sem pátria... Agora, tínhamos a terrível obrigação de ser as chuteiras da pátria... assim como uma Estatal...

- Como assim, Nelson? - pergunto eu, como nos maus diálogos de teatro.

- Ô rapaz... Primeiro, porque o País virou um passado para os plásticos negões falando alemão, francês, inglês, todos de brinco e com louras vertiginosas. Não são ingratos, não; mas neles está ausente a fome nacional, a ânsia dos vira-latas querendo a salvação. E eles tinham de confirmar o otimismo que a mídia oficial lança na cara da gente... Antes, o Lula os recebeu como um pai se despedindo de pracinhas... Agora, quero ver se ele os consola na volta...

O Dunga criou um país fechado... As concentrações eram ilhas secretas... Como o Lula, só ele decidia o que era bom para o povo ou não.

Fez uma lavagem cerebral nos jogadores que ficaram com um pavor de recrutas diante do sargento. Em vez de orientar as vocações dos rapazes, ensinando-lhes a liberdade, a coragem e o improviso, Dunga achou que todos têm de caber em sua estratégia. O pior cego é o surdo. O técnico devia ser um reles treinador, quase um roupeiro, humilde diante dos craques. Mas o Dunga parecia um "Mussolini" de capacete e penacho. Acho que Dunga tem inveja de craques malabaristas... Queria que todos jogassem como ele. Você reparou como ele esbravejava com liberdade na raiva, mas, na hora da alegria de um gol, celebrava de cabeça baixa e mãos fechadas, como uma dor?

- É mesmo, Nelson... você vê tudo...

- Não; foi o João Saldanha que berrou isso, pois está uma fera atirando patadas em todas as direções... Falou que vai baixar num terreiro espírita e mandar fazer despacho contra o Dunga; quer enterrar ele como sapo de macumba...

Dunga errou, pois jogador brasileiro não gosta de lei nem de planejamentos; quer inventar sozinho. O único criativo na Copa foi o "Loco" do Uruguai e do Botafogo. É isso... sem loucura não se joga. Eu já falei que os escritores brasileiros não sabem bater um escanteio... pois digo o mesmo dos jogadores de hoje, que não sabem mais o que é poesia... Você viu o Zizinho jogar, rapaz?

- Vi, Nelson!... Era uma obra feita de ar, engano e dança, de fúria e delicadeza, como Pelé depois. Zizinho era um escultor de jogadas.

- Não faz subliteratura, rapaz... Não fica bem pra você... O Zizinho era um craque porque a bola o seguia com a fidelidade de uma cadelinha... Zizinho tinha um peito heroico feito anúncio de fortificante. Vou te dizer uma coisa, rapaz: eu senti até um certo alívio em mim e no povo brasileiro que era obrigado a torcer pelo time de um técnico odiado. Senti um certo alívio - a realidade voltava. O povo estava certo: tinha de ter Ronaldinho no banco, Ganso, Neimar, etc.

Isso é o óbvio... Dunga nos devolveu a realidade e vamos ficar livres dele antes de 2014...

Você reparou que os jogadores jogavam divididos entre estratégia e improviso? Não sabiam o que escolher... Sentiam-se sem liberdade; quando o Robinho avançava e improvisava era tomado de um sentimento de culpa, como se estivesse pecando... Você veja o Kaká... menino bonito, religioso, ficou tão nervoso que começou a bancar um mini-Dunga, chutando, antipático... Kaká ficou dividido entre Deus e o Diabo.

- Mas, por que o Dunga não ouviu a voz do povo?

- O burro acha que ser inteligente é discordar do óbvio, rapaz. E quando o óbvio é desprezado, ficamos expostos ao sobrenatural, ao mistério do destino. Por exemplo, por que começamos o jogo como um corpo de bailarinos eufóricos e, no segundo tempo, ficamos paralíticos como sapos diante de jararacas.

- Acho que a gente ficou com medo da Holanda...

- Não é não. Na sexta-feira não estávamos com medo da Holanda, não. Até expulsamos os holandeses em 1630, com Maurício de Nassau e tudo... O que tivemos foi medo de nós mesmos. Voltou-nos o complexo de vira-latas e ficamos inibidos até para chupar um picolé....

- Mas por que o medo?

- Foi o empate... lembranças de 50, talvez... Mas também acho que o time se sentia obrigado a manter a euforia midiática otimista do governo Lula, ou do Dunga, que deu uma de chefe de governo. A obrigação de vencer era peso demais para os rapazes. A dez mil quilômetros, os jogadores ouviam os gemidos ansiosos das multidões de verde e amarelo, como uma asma patriótica. Não esperávamos uma vitória, mas uma confirmação política

É isso aí, rapaz...

- Mas, Nelson...

- Vou desligar porque vai ter uma mesa-redonda aqui, com o Scassa, o Saldanha e o Feola... Os anjos estão curiosos...

E desligou...

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