''Minha obra é um óvni na produção Tailandesa''

Apichatpong Weerasethakul fala dos efeitos de seu trabalho experimental

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

Apichatpong Weerasethakul, Joe para os íntimos, é o primeiro a admitir que seu cinema é feito de memórias. Garoto, morava com os pais, que eram médicos, num hospital. Brincava pelos corredores com outros meninos. Na morgue, via os cadáveres estendidos. Os fantasmas sempre povoaram sua imaginação, mas não se pode dizer que eram ameaçadores. Fantasmas, lendas, relatos populares, tudo isso vira experimentalismo na obra de um dos autores mais pessoais do cinema atual.

Joe está em Buenos Aires, como homenageado do festival 4 + 1, que se desenrola simultaneamente em cinco capitais - além da capital argentina, Cidade do México, Bogotá, Madri e São Paulo, na Cinemateca Brasileira. Os cinéfilos paulistanos não podem perder hoje Les Plages d"Agnès, de Agnès Varda, ensaio poético, na falta de definição melhor para a mistura de documentário e ficção, em que autora revisa a própria carreira e faz um retrato geracional (da nouvelle vague). Mas o assunto é Joe.

Em Buenos Aires, ele apresentou Tio Bonmee, Que Pode Recordar Vidas Passadas. Foi ciceroneado por Lucrecia Martel. A autora de O Pântano foi ver Tio Boonmee no Malba, museu transformado em local de projeções e sede do 4 + 1. Ela confessa seu fascínio pelo mistério de Apichatpong. Justamente mistério e poesia são recursos de que os críticos se valem para definir o cinema do artista tailandês. Ele diz que, como espectador, é imune ao próprio mistério. "Trabalho tanto nos filmes e sua construção é tao racional para mim que, ao vê-los na tela, só me lembro das intenções, ou dos percalços na sua execução."

Ele conta que seu cinema experimental é como um óvni na produção tailandesa, mas Tio Boonmee, por causa da Palma de Ouro que recebeu em Cannes, em maio, virou acontecimento nacional. A única cópia do filme no país foi vista por mais gente que ele poderia sonhar. Joe estudou cinema no Art Institute de Chicago. Escolheu-o por ser considerada a mais vanguardista e experimental das escolas de cinema. O repórter lembra Quentin Tarantino, presidente do júri de Cannes em 2001, dizendo que tinha sido obrigatório premiar Mal dos Trópicos porque Joe possuía defensores ardorosos, que queriam até a Palma para ele. Este ano, ela veio pelas mãos de Tim Burton. Dois diretores/autores de Hollywood. "É o mais perturbador", ele admite. "Faço filmes que são o oposto de Hollywood e eles me premiam" (risos). Sobre sua instalação na Bienal de São Paulo, explica que integra o projeto Primitives. A instalação, uma mostra de fotos, um livro, Tio Boonmee - tudo está relacionado. Joe está louco para voltar para casa. O próximo filme está na sua cabeça e quer escrever logo o roteiro. A Palma de Ouro, gerando expectativa, não o paralisa? "Nem um pouco. É uma atitude oriental. Mesmo se estivesse ansioso, bastaria um pouco de meditação."

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