'Minha nudez está sendo castigada'

Escritora brasiliense e blogueira se sente discriminada pelo Ministério da Cultura em projeto de livros e site erótico

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2013 | 02h06

A autora brasiliense do gênero erótico Helena Almeida está perplexa e indignada. Ela denuncia que está sendo vítima de preconceito por parte do Estado brasileiro - mais especificamente, do sistema de incentivo às artes do Ministério da Cultura.

A escritora enviou um projeto para se habilitar a captar recursos por meio da lei de incentivo à cultura para um livro e um blog. Foi recusada duas vezes. Ao ler o texto que justificava a negativa, deparou-se com alegações que considera moralistas, como a de que seja "baladeira". Outra alegação é que ela é estreante - o que não é comum como critério do MinC.

O detalhe é que Helena é, ela mesma, consultora de projetos culturais. "Em cerca de quatro anos, já inscrevi na lei Rouanet mais de 15 projetos para diferentes artistas. Todos foram aprovados. O único projeto de minha autoria que vi ser indeferido até hoje foi o dos meus livros", ela se espantou.

Seguindo a trilha aberta por Bruna Surfistinha,Helena Almeida resolveu aventurar-se na literatura com uma persona realista, e publica contos eróticos e conteúdo sobre sexualidade. Helena crê que alguns de seus textos escandalizaram o parecerista. Um trecho citado: "Comecei a me relacionar com diferentes homens na rua, para testar a minha reação e o que achava disso. Bati meu recorde: sete caras num mês. Vi que tinha gostado mesmo de poucos. Além do mais, nem cheguei a cobrar de nenhum", ela escreve, em Lasciva Conta Tudo.

Jornalista formada pela UnB e especialista em Relações Públicas pela Universidade de São Paulo, Helena se pergunta quando é que o Estado vai passar a considerar a literatura erótica como parte do escopo da literatura mundial. Tal incompreensão, ela considera, não teria nunca permitido que surgissem obras como a de Anaïs Nin, e Cassandra Rios (das quais ela é fã).

"Elas escreviam literatura erótica numa época em que predominava um conservadorismo extremo. Se hoje já é difícil para mim afrontar a tal 'moral e bons costumes', imagino como foi naquele tempo", afirmou Helena, que queria ter a chance de encontrar-se com Marta Suplicy. "Ela é sexóloga, não é possível que concorde com algo assim."

O parecerista da Fundação Biblioteca Nacional que examinou o projeto de Helena foi implacável em sua análise. "De acordo com a descrição do projeto, trata-se de uma peça de autopromoção da proponente e, portanto, recomendamos seu indeferimento."

"O parecerista sugere em seu texto que sou só uma p... querendo me promover. Ele usa como único argumento para indeferir o projeto o fato de que não tenho carreira literária. No entanto, a lei Rouanet não impõe qualquer restrição a artistas iniciantes, pelo contrário: todos têm teoricamente os mesmos direitos legalmente assegurados", alegou a autora.

Ela afirma que não quer depender de recursos incentivados para publicar livros. "Quero apenas o direito de pleitear patrocínio ao meu projeto, como qualquer escritor", declara. Helena é, ela mesma, personagem de sua ficção. Aos 28 anos, faz ensaios nua e interage de forma aberta com os fãs, que são muitos. Tem cerca de 150.000 visitantes por mês no seu blog Lasciva.blog.br; 6.000 seguidores no Twitter e mais de 3.000 fãs no Facebook. "Por conta do tema, muitos dos meus leitores preferem não me acompanhar nas redes sociais. Têm certos pudores em curtir minha página do Facebook, por exemplo."

Segundo o MinC, o embasamento para a negativa ao projeto de Helena é puramente técnico. "O projeto 130201 foi indeferido porque houve corte superior a 50% do valor solicitado pelo proponente. De acordo com o artigo 36 da instrução normativa, quando isso ocorre o projeto não pode ser aprovado. O valor solicitado, conforme lista abaixo, foi de R$ 235.100 com o corte orçamentário foi para R$ 108.889, ou seja, corte superior a 50%", informou o MinC.

Ela entrou com recurso. "Achei estranhíssimo cortarem do orçamento os custos com o site e apontarem mídia de internet como 'excessiva e irrelevante' para um projeto incentivado. Afinal, custos com a divulgação do projeto cultural estão previstos em lei." Ela também acha esquisita a alegação de tentativa de autopromoção e cita um livro incentivado de fotos de si mesma da escritora Fernanda Young ("Do qual, aliás, eu gosto muito").

 

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