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Minha entrada secreta em Notre-Dame

Após descobrir a pequena porta na lateral da catedral, nunca mais peguei fila

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

26 de abril de 2019 | 02h00

Para Lygia de Carvalho 

 

Vi a catedral de Notre-Dame pela primeira vez em 1963, quando tinha 27 anos. Em uma viagem meio aventureira, fui à Europa, graças a uma passagem que o cineasta Fernando de Barros conseguiu para mim com Wallinho Simonsen, filho do dono da Panair. Presente maior de minha vida, até então. Sonho que vinha dos tempos de Araraquara, das aulas de francês com Fanny Marracini, dos filmes de René Clair, Marcel Carné, René Clement e tantos outros. Paris era Notre-Dame, mas também Pigalle, Henry Miller, Montparnasse, Folies Bergère, Les Halles, Louvre.

Ainda trago em mim a caminhada que fiz na primeira manhã, saindo de um modestíssimo hotel na Rue Bonaparte, no Malaquais, sob uma garoa fina, em busca da catedral. Cheguei à margem do Sena e tomei à direita, fascinado, pasmado. Olhava para o chão. Queria e sabia pelos mapas e pelo muito que tinha lido que à certa altura, erguendo os olhos, eu a veria inteira à minha frente. Todo meu grupo de Araraquara, Hugo Fortes, Sérgio Fenerich, Pimenta Neves, Luis Ernesto do Vale Gadelha, Marco Antonio Rocha, Bento Carnaz, podia andar em Paris, como se fosse nossa terra, dada a imaginação e o GPS imaginário dos livros, guias, fotos e mapas. Eu sabia que lá na frente bastaria erguer os olhos para dar com ela, Notre-Dame. A professora de desenho, Cândida Seabra, nos tinha contado das rosáceas deslumbrantes, complicadas, obras-primas. 

Então, em dado momento (depois soube, foi na altura da Rue Saint Julien le Pauvre), parei e ergui os olhos. Lá estava ela, imensa, toda negra, imponente, assustadora, desejada. Aliás, grande parte de Paris era enegrecida pela poeira e fumaça de séculos e séculos. Foi André Malraux, ministro da Cultura de De Gaulle, que decidiu limpar tudo e a catedral ressurgiu numa cor natural, faiscante. Naquela manhã, quando percebi, estava inteiro molhado pela garoa, tanto tempo fiquei ali paralisado. Quando entrei – nem havia essa doideira de turistas – fiquei maravilhado, a nave comportava umas cem igrejas matrizes de minha terra, e era vazia, escura, silenciosa. Imaginei que havia somente Deus e eu. Meu primeiro alumbramento, como disse Manuel Bandeira. Nunca mais a vi vazia na vida. 

Ao sair, entrei em um café, disse Messieurs dames, como tinha visto em filmes, considerando-me parisiense (valeu, Fanny, fazer do francês minha segunda língua), e apesar do orçamento exíguo, pedi um café e um conhaque, recuperei o calorzinho interno. Este café estava lá na última vez que estive, poucos anos atrás. Sempre fui e tomei um café e um conhaque. Porém o usual Messieurs dames sumiu quando a porta se abre e alguém entra.

Em 1987, visitando Berlim, recém-casado com Marcia, um amigo de Colônia, Ricardo Bada, jornalista da Deutsche Welle, ao saber que iríamos a Paris, apanhou o telefone e ligou para um hotel especial, o Esmeralda, nos recomendando ao concierge. E nos explicou: “Lá, só se hospeda com recomendação de alguém que já foi”. Não é preciso ser vip ou ter dinheiro, basta termos amigos. O Esmeralda fica numa pequeníssima rua, a Saint Julien le Pauvre, à beira do Sena, em cima da lendária livraria Shakespeare & Company, que antes estava no Odeon. 

Em Paris, quando chegamos, demos como um velho prédio construído em 1640, com escadas rangendo, paredes de pedras grossas, ásperas. Imaginei Modigliani morando ali. Bada tinha recomendado e reservado o quarto 24. Madame Bruel, a dona, uma pintora, nos saudou de seu canto. Até morrer, ela nos enviou no Natal um cartão-postal pintado por ela.

Subimos a pé, puxando malas, maldizendo o amigo. Assim que entramos, esquecemos tudo, agradecemos. No 24, deitados na cama, janelas abertas, demos com a Notre-Dame praticamente dentro do quarto. Não conseguimos dormir por horas. Ali, ficamos dias e dias, acordando com a catedral, dormindo com ela iluminada, e nossos sonhos eram suaves. Raras vezes nos últimos anos estivemos em outro hotel. Agora, ele foi vendido, mudou tudo. 

Quem leu o romance de Victor Hugo, sabe que Esmeralda é a personagem feminina que comoveu a humanidade por séculos. No cinema, entre outras adaptações, foi vivida por Maureen O’Hara em 1939, a atriz favorita de Zé Celso Martinez. E houve uma versão de 1956 com Gina Lollobrigida. Sem esquecer um desenho longa-metragem da Walt Disney.

Nos últimos anos, os turistas faziam filas quilométricas diante da catedral, esperavam-se horas para entrar. Um dia, Marcia e eu percebemos uma pequena porta lateral, onde alguns entravam direto. Fomos conferir. Ao nos aproximarmos, um padre indagou: “Vocês são da paróquia?”. Sem hesitar eu disse sim. E ele: “De que rua?”. E eu: “Saint Julien le Pauvre”. Entramos, assistimos a um concerto de órgão. Nunca mais pegamos fila. Voltarei a visitar Notre-Dame recuperada? Ouvirei as missas com cantos gregorianos?

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