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Fábio Porchat
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Minha casa, minha vida

Eu morei dezenove anos em São Paulo. Treze deles numa mesma casa. Dia desses, resolvi, a caminho do hotel, passar pela minha antiga rua, pra matar as saudades. Quando parei o carro na frente da casa, qual não foi minha surpresa? Não havia mais casa, só um buraco gigante entre os meus vizinhos. A casa foi demolida. Eu fiquei alguns minutos olhando pro vão pensando: cadê? Na minha cabeça, nunca imaginei que uma casa poderia sumir de repente. Ninguém me perguntou se podiam botar abaixo toda a minha infância.

FÁBIO PORCHAT,

07 de julho de 2013 | 02h13

No mínimo, eu esperava uma ligação do moço do trator falando: Oi, Fábio, tudo bem? Eu sou o Geílson aqui da demolidora de casas e de lembranças bonitas da infância e eu to te ligando só porque eu tô pra jogar todas as suas memórias pelo ralo e queria saber se você não quer dar uma passada aqui só pra ver se tem alguma recordação que você queira reforçar. Ou até, um e-mail dos vizinhos, com quem nunca tive contato, mas não importa, tinham que ter consideração suficiente para descobrir meu contato de alguma forma escusa, e me avisado: Ó, se liga que o pessoal tá pra destruir uma parte significativa da sua vida.

Eu me lembro de tudo, apesar de não morar lá há quinze anos: da escada com carpete verde musgo; da janela da sala que não fechava direito; da varanda que ligava todos os quartos; que eu e minha irmã tomávamos banho de chuva; da sala de TV que um dia se transformou em sala dos horrores, quando uma barata voadora entrou pela porta e todos fugiram desesperados, trancando minha mãe em companhia do monstro; da cesta de basquete que eu tinha pendurado numa parede do salão e que fazia minha alegria quando eu organizava campeonatos mundiais de basquete disputados somente por mim mesmo e nos quais sempre ganhava o Brasil; do teto da garagem em que eu e meu pai subíamos pera desentupir um ralo que sempre ficava cheio de folhas; das teias de aranha gigantes que surgiam no jardim de um dia pro outro com aranhas do tamanho de capivaras, nas quais eu botava fogo com uma tocha improvisada de jornal; dos natais com minhas tias e minha vó Lourdes...

De repente, pensando em tudo isso, parado, perplexo, eu vi minha casa ali de novo, na minha frente. Exatamente como eu havia deixado. E percebi que, na verdade, ela só tinha sido demolida se eu estivesse de olhos abertos. Se eu fechasse os olhos, a casa estava lá, pronta pra morar, com todos os móveis, com toda a minha família comemorando o meu aniversário de dez anos, com minha irmã chorando porque eu impliquei com ela, a minha mãe costurando durante a noite enquanto assistia a um filme na sala, com o meu quarto cheio de bonequinhos do He Man... Pense na casa da sua infância agora. Feche os olhos. Viu? Ela também está lá. E digo mais. Se bobear, nós somos vizinhos!

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