Minas vê peças raras da coleção Pimenta Camargo

Numa casa do Morumbi, nas vizinhanças do Palácio dos Bandeirantes, estão 40 aquarelas que pertenceram ao marquês de Pombal, imagens de anjos de Mestre Valentim, um serviço de porcelana da Companhia das Índias que foi de d. Carlota Joaquina, quadros de Frans Post e Eckhout, esculturas do Aleijadinho, entre 2 mil peças raras.Trata-se de uma das mais prodigiosas coleções de arte do País, iniciada há 51 anos pelo casal Mário e Beatriz Pimenta Camargo com a compra de prosaicas quatro xícaras de café em Uberaba (MG). Amanhã, 37 peças pouco conhecidas daquela coleção - da parte do mobiliário - vão voltar a Uberaba, onde tudo começou, para uma exposição.A mostra, no Museu de Arte Decorativa de Uberaba (Casa José Maria dos Reis, Rua Abel Reis, s/n), revela pela primeira vez ao público alguns dos itens menos conhecidos da coleção de Beatriz Pimenta Camargo (seu marido, Mário, morreu em 1996), como um armário barroco do século 17 que teria pertencido ao conde Maurício de Nassau - era móvel de uma de suas residências, o Palácio Friburgo ou o Palácio Boa Vista, em Pernambuco."Colecionador é uma palavra desgastada hoje em dia", diz Beatriz, que é diretora de exposições do Museu de Arte de São Paulo (Masp). "A pessoa tem dois quadros e já se diz que é colecionador, mas uma coleção precisa ter consistência e critério", ela diz. A coleção de Beatriz, se não for consistente, é de fato impressionante.Possui uma biblioteca brasiliana com cerca de 600 primeiras edições, mapas, gravuras, quadros de Eckhout, Post e Peeters, prataria, móveis, entre outros objetos. Obras estiveram em mostras como O Brasil dos Viajantes e Brésil Baroque, no Petit Palais, em Paris, e em Brasil de Corpo e Alma, no Guggenheim de Nova York.Mas a maior viagem coletiva que as peças de Beatriz já fizeram foi para Portugal. Em 1991, mil delas foram expostas na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. No ano que vem, retomam a rotina de viagens: a convite do Palácio Real de Milão, 500 peças dessa coleção vão à Itália para exposição, com curadoria de Ângelo Oswaldo Araújo Santos. "Em geral, as peças mais procuradas são mesmo os quadros de Frans Post e Eckhout e os Aleijadinhos, mas há muitas outras muito requisitadas", conta a colecionadora.A coleção não fica só na residência dos Pimentas Camargos. Na fazenda de Beatriz, há uma capela inteiramente decorada por Mestre Athayde. Segundo ela, a capela foi retirada de uma igreja em ruínas em Ponte Nova (MG) e adquirida pela família. E também um anjo de Aleijdinho, vindo da Capela da Jaguar (MG). "Como tudo na vida acaba mudando de mãos, a peça veio parar aqui", diz ela.O estudioso Clarivaldo Prado Valadares esteve na casa dos Pimentas Camargos certa vez e ficou impressionado. "Essa coleção tem cabeça, tronco e membros", afirmou, dando uma idéia do conjunto.Beatriz disse que, depois de viúva, ainda adquiriu algumas peças, mas não são tão importantes. "As pessoas hoje têm outros interesses e as coisas estão mais caras", ela conta. "Não quero parecer arrogante, mas é que a peça também precisa ser muito importante para me interessar." As histórias de aquisição das peças dariam um livro. As porcelanas da Companhia das Índias, por exemplo, foram a leilão há alguns anos. Mário e Beatriz foram com a firme intenção de arrematá-las, mas perderam para um comerciante português. Quando voltaram a São Paulo, o comerciante ligou para convidá-los a conhecer as peças em sua casa, num jantar.Passados alguns anos, ligou para o casal Pimenta Camargo a mulher do comerciante, que dizia ter sido abandonada por ele e tudo que lhe restara do casamento era o jogo de porcelana. Queria desfazer-se dele. "Nós nunca quisemos comprar nada na bacia das almas, mas foi tão pungente o pedido que aceitamos comprar", conta Beatriz. "Dissemos a ela que lhe venderíamos de volta pelo mesmo preço quando tivesse condições, mas ela nunca mais apareceu."Aquarelas - Há também 40 aquarelas de Miranda, que pertenceram ao marquês de Pombal, e foram arrematadas pelos Camargos por telefone, em leilão da Sotheby´s de Nova York. "Naquela época, era meio difícil sustentar a ligação de São Paulo para Nova York sem que caísse", diverte-se Beatriz.Filha de uma família de engenheiros e diplomatas, ela conheceu o mineiro Mário nos anos 50. Ele tinha 16 anos e viera a São Paulo para estudar Direito, em 1949. Beatriz teve com ele quatro filhos e tem agora 13 netos.Segundo Beatriz, Mário Pimenta Camargo, que foi diretor do Masp, nunca afrouxou os laços com sua Uberaba natal. "Chegou a comprar o documento de fundação da cidade, que achamos depois de alguma procura, e doou para a cidade", conta.Outras peças que estão seguindo para Uberaba são um cadeiral do século 18, da época de d. José I, feito em jacarandá e com encosto e assento de couro lavado; uma cadeira estilo Sheraton brasileiro, pernambucana, do século 18, da época de d. Maria I; uma cômoda-papeleira d. João V, da primeira metade do século 18; duas cômodas-papeleiras em miniatura, também do século 18, entre outras.Evolução - A amostra recupera a evolução de um processo histórico interessante. Segundo a historiadora Myriam Ribeiro de Oliveira, o mobiliário no Brasil começa a chegar ao País na bagagem dos colonos. "A simplicidade do modo de viver desses colonos e o clima de temperaturas elevadas não predispunham a grandes aparatos", conta."Junte-se a adoção de costumes indígenas, como o uso de redes - que em algumas regiões praticamente eliminou o hábito de camas -, e teremos um mobiliário reduzido aos tipos essenciais, como arcas e baús para a guarda de objetos, mesas, cadeiras e bancos para as refeições", afirma a historiadora.Dessa natureza, há uma arca do século 19 e uma mesa de aba e cancela do fim do século 18, procedente de São Sebastião (SP).O mobiliário português do século 18 é dividido por especialistas em três períodos estilísticos: o barroco do reinado de d. João V, o rococó de d. José e a transição para o neoclássico de d. Maria I. As pernas curvas dos móveis caracterizam o período joanino. Pernambuco, segundo Myriam, teve influência forte dos estilos ingleses no mobiliário, fato que não aconteceu em Minas Gerais - ali, prevaleceu o rococó português.

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