André Nazareth/Divulgação
André Nazareth/Divulgação

Minas memorial

Ocupando imponente edifício do século 19, museu agora inaugurado se dedica à história, cultura e tradições mineiras

Lilia Moritz Schwarcz, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2011 | 00h00

Há quem diga que cada cidade guarda seus próprios fantasmas; difícil é deparar com eles. Basta, porém, que a noite caia, que o silêncio se instale e eles aparecem diante dos olhos e ouvidos mais incrédulos. Se essa história pode parecer difícil de engolir, já em Belo Horizonte ela parece contar com seguidores fiéis.

A cidade foi fundada em 1897, tendo sido a primeira planejada para cumprir o papel de capital do Estado. Belo Horizonte foi inaugurada junto com a luz elétrica, que representava, nesse contexto de virada do século, o grande ícone dos novos tempos. Se assim declama a ladainha oficial, já a lenda retorna à tradição popular. Segundo ela, a nova urbe foi assentada por sob os escombros do seu passado, soterrando antigas casas e ruas do pequeno Curral del Rey. A mesma cantilena afirma que, até os dias de hoje, os habitantes da Vila voltam de ora em vez para cobrar pedágio ou para, simplesmente, não serem esquecidos.

Foi também nos idos de 1893 que se inaugurou o edifício destinado à Secretaria das Finanças. Contando com rica decoração interna e material de construção importado da Europa, o imponente prédio foi idealizado a partir de três pavimentos distintos. A uni-los uma escada de ferro pesada, vinda igualmente do Velho Mundo. Na fachada principal desfilava o estilo dórico; na superior o coríntio e na cimalha do terceiro pavimento o escudo do Estado de Minas Gerais ladeado pelo da Secretaria de Finanças. Tudo bem equilibrado para apresentar luxo, antiguidade e credibilidade, numa operação de convencimento de que o recente já nascera velho e assentado. Nada como inventar uma tradição a partir de grandes monumentos, e assim ostentar condignamente projeções das elites locais.

Pois bem, é exatamente nesse prédio, repleto por todo tipo de imaginário, que acaba de ser inaugurado o mais novo e completo museu brasileiro dedicado à história, cultura e tradições de um Estado. O Memorial Minas Gerais - Vale cobre não só o período largo que vai do século 17 ao 21, como trata de tudo e de todos. Dividido em três módulos (que acompanham e redesenham a arquitetura do prédio - História (Minas imemorial); Cultura (Minas Polifônica) e Moderno (Minas Visionária), o espaço expositivo anima o visitante a tomar contato com vários momentos e marcos de Minas Gerais.

Gringo. A curadoria ficou a cargo de Gringo Cardia, que transformou o antigo monumento num museu pronto para a experimentação. Em vez de seguir o modelo das antigas instituições, feitas apenas para constatar o que previamente se sabe, nesse caso, o convite é para que se participe de um projeto conjunto. Além do mais, 19 pesquisadores, especialistas em diferentes áreas - dentre historiadores, arqueólogos, antropólogos, educadores, críticos de arte e de moda, entre outros - reuniram-se para elaborar o conteúdo e textos que acompanham os módulos; todos coordenados pelo Projeto República: Núcleo de Pesquisa, Documentação e Memória - UFMG e pelos professores Heloisa Murgel Starling (do Departamento de História), Carlos Leite Brandão (da Escola de Arquitetura), Sandra Goulart de Almeida (da Faculdade de Letras) e Bruno Viveiros Martins.

O resultado é uma mostra viva, que mistura com rigor, mas também boas doses de humor e bom gosto, um material tão múltiplo como polivalente. Se no térreo estão dispostos "os modernismos mineiros" - representados pelas fotos de Sebastião Salgado, os trabalhos de Lygia Clark e a poesia de Drummond - devidamente vestida nas roupas de Ronaldo Fraga -, em outros andares reinam a história e demais culturas locais.

Numa das salas, por exemplo, o visitante se depara com uma maquete gigante de uma cidade mineira, e, por conta do efeito da luz, acompanha o sol nascer e se pôr, assim como o cotidiano local. Em outra, pode-se seguir os debates da Inconfidência Mineira e, com alguma concentração e empenho, tomar parte deles.

Em mais outro local do edifício, é possível invadir uma gruta para admirar a arte rupestre do Estado e, mais, interferir nela: a sombra daquele que entra no recinto altera os desenhos; todos inspirados na paisagem Peruaçu.

Festas. Uma ala muito colorida traz o artesanato e a cultura material e imaterial de Minas Gerais. Aí estão as festas e o depoimento de seus festeiros ou as ricas cerâmicas do Vale do Jequitinhonha. Um festival de tons faz com que o espectador mude de canal, e sintonize outra face do Estado. Falando nas muitas faces, outra instalação traz a contribuição dos diferentes grupos que formaram o Estado - entre europeus, africanos e indígenas.

Não há como descrever todo o Memorial, até porque um relato como esse jamais substitui aquilo que se vê ou se sente. Melhor mesmo é voltar aos nossos fantasmas. Não deixe de passar por um aposento convertido em gabinete de trabalho: com seus retratos, escrivaninha, sala de estar e livros. Por lá, se narra a história da cidade, mas permanecem guardadas surpresas que farão o visitante ingênuo perder o sono. Governantes, profissionais liberais, mocinhas, serviçais ou membros da elite ... já viram fantasmas. Como eles, também o professor Peter Kien - personagem do livro Auto de Fé, de Elias Canetti - conheceu os seus. O eminente sinólogo tinha nos livros e em sua seleta biblioteca verdadeira obsessão, mas costumava reconhecer que havia outros a partilhar desse seu recinto, quase sagrado: "Dez mil livros e sobre cada um deles vive um fantasma acocorado. Quando o silêncio é profundo, às vezes os ouço virarem as páginas". Pior (ou melhor) eles liam tão depressa como ele.

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