Minas e vida interior no ''Cinema'' de Eder Santos

Artista, que filmará 'O Deserto Azul', exibe nova obra cinematográfica

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2010 | 00h00

Apropriação. Imagem do curta 'Cinema', de Eder Santos, feito a partir de obra de André Hallak

 

 

Eder Santos está totalmente imerso na ficção científica. É que o videoartista mineiro, de 49 anos, um criador reconhecido nacional e internacionalmente no gênero, começa a filmar em agosto seu segundo longa-metragem, O Deserto Azul, filme com enredo de certo modo futurista, ambientado em Brasília. "O personagem "Ele" tem a sensação de que vai passar para uma outra dimensão. Em situações cotidianas fica decifrando um jeito de ir a esse lugar do qual tem uma visão", conta Eder, que estava em Nova York justamente tratando com o músico Stephen Vitiello, parceiro de longa data em seus projetos, a trilha do filme. A obra, já até com proposta de se transformar em produção 3D, contará com os atores Maria Luisa Mendonça, Angelo Antonio e Odilon Esteves e fotografia de Pedro Farkas.

Se em 1997 Eder Santos afirmava que o futuro da videoarte seria apenas a videoinstalação, hoje o artista vê um espectro maior de possibilidades no trabalho de narrativas com a imagem. "O cinema deu uma virada ou o vídeo deu uma avançada. Na minha opinião, o que se chama de cinema digital é a evolução do vídeo, assumindo uma linguagem. Os equipamentos são muito mais baratos, é mais viável", diz Eder, que realiza obras desde a década de 1980, completando, ainda, que será o 3D "o futuro mesmo da projeção, entrar num ambiente com imagens e daqui a pouco, sem mais óculos".

Tanto que nesse momento em que vai começar a filmar seu novo longa, em 35 mm e em digital - e prepara mostras para o Masp e Museu Vale -, ele também inaugura na quarta-feira para convidados e na quinta-feira para o público, na Luciana Brito Galeria, exposição que tem como obra principal o curta-metragem Cinema, em projeção inédita em São Paulo, e ainda faz um retrospecto de outros de seus trabalhos de cunho cinematográfico (leia abaixo), além da videoinstalação Distorções Contidas II (2010), que tem como referência obras de Duchamp.

Coisa bonita. "A qualidade do vídeo tem o seu lugar, mas não vai chegar nunca a ser o cinema", já define Eder Santos, acreditando, entretanto, que há cerca de sete anos "o vídeo narrativo era mais estranho" que agora. A nova obra que ele apresenta na cidade, criada em 2009, participou há pouco dos festivais de cinema de Roterdã, na Holanda, e do de curtas-metragens de Oberhausen, na Alemanha. Na galeria, é uma projeção de 6 metros e com qualidade perfeita em HD. Narrativa "da imagem pela imagem", como diz o artista, ela se passa em paisagens e cidades de interior de Minas Gerais com trilha de Vitiello ao fundo e nada de palavras. "Ainda sou a favor das coisas bonitas", diz Eder sobre a beleza poética do trabalho. A narrativa, especial, "entre sonho e imagem", remete, como afirma o artista, ao cinema de um de seus diretores preferidos, o italiano Michelangelo Antonioni

Entretanto, Cinema foi todo feito a partir da reutilização de imagens captadas por André Hallak e Leandro Aragão para o documentário O Nome É a Última Coisa Que se Escolhe, de Hallak. "Acompanhei o processo de realização da obra na minha produtora Trem Chic e fiz Cinema à minha maneira", conta Eder, emendando que o trabalho de edição é uma composição "como pintura".

 

 

EDER SANTOS - CINEMA

Luciana Brito Galeria. Rua Gomes de Carvalho, 842, 3842-0634. 10 h/ 9 h (sáb., 11 h /17h; fecha dom. e 2ª). Grátis. Até 31/7. Abertura na quarta.

 

 

 

IMAGENS EM MOVIMENTO

 

 

O Deserto Azul: O novo longa de Eder Santos vai ser filmado a partir de agosto em Brasília. Obra com cara de ficcção científica, terá como atores Maria Luisa Mendonça, Angelo Antônio e Odilon Esteves. Agora em julho, Eder Santos começa a criar uma parte curiosa da cenografia do filme, exposição ‘com sua curadoria’, no Centro Cultural Banco do Brasil da cidade, com obras de artistas como Carlito Carvalhosa e Rita Meyers e que poderá ser visitada pelo público.

 

 

Enredando Pessoas: Primeiro longa-metragem do artista, de 1995 e premiado no Festival de Cinema de Havana de 1996, traça a trajetória de um profeta com poder de projetar suas visões como imagens.

 

 

A Delicadeza do Amor: Maria Luisa Mendonça (foto) também participou desse curta de Eder, de 2004 e vencedor do Prêmio Petrobrás. Baseado em conto de Sandra Duarte Penna, tem no elenco Milhem Cortaz.

 

 

 

O FILME ONÍRICO DE ADRIANA VAREJÃO

 

Já a pintora carioca Adriana Varejão está apaixonada pela primeira vez por cinema. Em dezembro, ela rodou em um dia na piscina, sauna e cozinha do Palácio Quitandinha em Petrópolis, com uma equipe e três atores, seu primeiro filme, uma "narrativa poética", como define, que passa pelo sonho de um homem com uma sereia. "Nunca tinha feito cinema, mas sempre tive vontade", conta Adriana, emendando que o trabalho no ateliê pode ser muitas vezes tão solitário a ponto de querer se lançar a uma nova empreitada. Chegou agora a vez: seu filme, "meio a cara" de sua pintura, não tem título ainda, está em fase de edição e faz parte de um projeto que envolve outros artistas convidados a explorar a experiência cinematográfica. / C.M.

 

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