Milton Hatoum lança romance "Cinzas do Norte"

Desta vez os leitores não precisaram esperar uma década pelo novo livro do escritor amazonense Milton Hatoum, Cinzas do Norte (Companhia das Letras, 312 págs., R$ 39). Hatoum levou 11 anos para lançar Dois Irmãos (2.000) após estrear com Relato de um Certo Oriente (1989). A distância entre os livros agora é menor. Diminuiu para cinco anos, durante os quais ambos foram estudados em teses acadêmicas, conquistaram prêmios e projetaram o escritor no exterior. Traduzido em oito países, Dois Irmãos deve virar filme com roteiro de Maria Camargo, filha do escultor Sergio Camargo. Como nos livros anteriores, Manaus é o território de Cinzas do Norte, drama ambientado nos anos 1960. Nele, dois amigos de infância seguem diferentes caminhos, marcados pela ditadura militar. Olavo, conformado, permanece em Manaus, tornando-se advogado de porta de cadeia. Raimundo, rebelde, desafia a província e atravessa a fronteira para seguir sua vocação de artista. Cinzas do Norte é o relato pessimista de uma geração derrotada. Tão original que precisou de três narradores para contar o que acontece na zona agônica do Brasil. Conta a história de dois amigos que se distanciam e seguem diferentes caminhos durante o regime militar, o escritor mostra que, mesmo separados por um oceano e radicalmente diferentes, eles passaram pela mesma educação sentimental que os conduziu à desilusão. O primeiro título do livro era Vila Amazônia, deslocando o centro de Manaus para um microcosmo familiar rio abaixo, lá para os lados de Parintins. O título original evidencia o confronto entre a província e a imensidão amazônica. O novo título é mais sutil: acaba com a dualidade oriental-ocidental nessa viagem fragmentada à juventude do escritor, filho de libaneses que se estabeleceram na Amazônia. Como a mulher que revisita Manaus em Relato de um Certo Oriente, Hatoum encontra sua cidade desfigurada, um mundo perdido e desfeito em vozes narrativas que se alternam para contar uma mesma história. Cinzas do Norte é ainda mais ousado que Dois Irmãos. Hatoum cria um território imaginário recorrendo a fragmentos da memória de três narradores. Usa a voz anônima e recusa o papel da matriarca Emilie de Relato de Um Certo Oriente, dona da memória familiar e senhora do enredo. Ouve a versão de cada personagem nessa saga cubista, estilhaçada, em que também ecoa a busca desesperada pela identidade dos gêmeos Yaqub e Omar, de Dois Irmãos. Como eles, o amigos Lavo e Mundo, de Cinzas do Norte, tentam lidar com suas diferenças, entre elas o pai de Mundo, Trajano, novo rico, amigo dos militares e mais próximo de Lavo que, resignado à província e exilado no corpo textual, vê o mundo através das cartas do amigo. Trágico.

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