Milton Hatoum lança "Dois Irmãos"

Milton Hatoum lança amanhã seu tão esperado segundo livro. Dois Irmãos sai pela mesma editora Companhia das Letras que publicou o primeiro, Relato de um Certo Oriente, 11 anos atrás e que está na quarta edição e vendeu 7 mil exemplares. Os romances têm muito em comum. "A demora para mim é salutar", diz o escritor que trocou Manaus, sua terra natal e cenário de seus livros por São Paulo, há cerca de dois anos. Ele não acha importante publicar muito. Como professor de literatura francesa, ele exemplifica com Balzac (A Comédia Humana), um típico representante da era dos folhetins que escreveu muito, mais de 70 romances. Já Flaubert (Madame Bovary) escreveu pouco. "Sou um flaubertiano da minha pobre província", diz Hatoum.Influências ele admite sofrer ainda as de Clarice Lispector, Machado, Borges, Conrad, Dostoiewski, Faulkner e Guimarães Rosa acima de todos, por ter conseguido dar uma dimensão universal a um mundo muito particular que é o sertão. "Isso ele fez como ninguém. Ele deu dignidade aos marginalizados, afinal, Riobaldo era um jagunço". Hatoum nasceu numa família de excluídos, libaneses que aportaram em Manaus sem saber falar português e provenientes de uma cultura absolutamente diferente. É sobre a saga dessa gente que o escritor se debruça pela segunda vez. Em relação a Relato de um Certo Oriente, Dois Irmãos é "diferente sendo o mesmo ou o mesmo sendo um outro", define Hatoum com um jeito bem Guimarães Rosa de dizer.Mas é mais cruel, mais cru e muito mais autobiográfico que o Relato, segundo o autor. Para escrevê-lo demorou três anos e percorreu muitos lugares, freqüentou casas e conversou longamente com muita gente, ouviu histórias de incestos, separações, brigas entre irmãos, leu a Bíblia e reproduziu em Dois Irmãos uma versão de Caim e Abel. Deu para os amigos lerem: Luiz Schwarcz, Davi Arrigucci Jr., Maria Emília Bender, Denise Pegorin, Horácio Costa, Raduam Nassar. Modificou e chegou à versão final que autografa amanhã à noite.É difícil definir o romance. Nem Hatoum consegue fazê-lo. Omar, que em árabe significa vida longa, é o filho preferido da mãe, Zeina, que significa bela e é dominadora como reza a fama das mães árabes, judias, italianas. O pai Halim, que quer dizer generoso, tinha ciúmes dos três filhos do casal. Queria a esposa só para ele. Yaqub (Jacob), irmão gêmeo de Omar, é mandado para o Líbano aos 13 anos e volta aos 18. O narrador que é filho de um deles conta essa intrincada história 30 anos depois."Dois Irmãos". De Milton Hatoum. Amanhã, às 18h30.Livraria Cultura. Avenida Paulista, 2.073, tel. 285-4033

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