Milton Hatoum explica romance em SP

A próxima reimpressão do romanceDois Irmãos (Companhia das Letras) vai trazer mudançassutis: alguns trechos sofrerão pequenas alterações que, se nãovão modificar o curso da história, ajudarão, como um preciosopolimento, a enriquecê-la ainda mais. "Decidi pelas correçõesdepois de conversar com os responsáveis pela tradução do livropara o inglês e o alemão", explica o escritor Milton Hatoum,autor de Dois Irmãos, que já vendeu 12 mil exemplares emcinco edições. "Ao verter a história para aqueles idiomas, elesapresentaram sugestões que representam um avanço, melhorando otexto; portanto, fiquei motivado a promover as mudanças." A busca incessante pela melhor frase ou pela palavraexata, aliada à generosidade em acolher sugestões externas mesmopara um trabalho consagrado (um dos principais lançamentos de2000, Dois Irmãos já figura entre os romances brasileirosmais destacados do final do século passado), será um dos tópicosdo curso que Milton Hatoum começa a ministrar a partir desta terça-feira, às 20 horas, no Centro Universitário Maria Antônia: AConstrução do Romance. Dividido em quatro seminários, o curso começa amanhã ànoite com o tema "Considerações sobre o gênero literário". Naspróximas três terças-feiras, os assuntos serão "Os Ângulos doNarrador: O Foco Narrativo", "Noções sobre o Tempo naNarrativa Ficcional" e "A Configuração das Personagens naEstrutura do Enredo". Os interessados poderão matricular-separa as quatro sessões ou apenas para aquelas que mais lheinteressam. "Não será um curso sobre como escrever ficção", avisaHatoum, indicado, no ano passado, ao Prêmio MulticulturalEstadão. "Apenas vou narrar minhas dificuldades e meus impassesdistribuídos nestes quatro temas e passar noções sobre romances,além de mostrar como aconteceram as rupturas dos gênerosliterários ao longo da história." Arquiteto por formação,Hatoum oferece ainda um raro e instigante tema para discussãosobre a distribuição do tempo e do espaço na estrutura de umromance. "Eis um assunto pouco tratado nos estudosliterários." O curso vai revelar a íntima ligação de Hatoum com aliteratura. Nascido em Manaus, em 1952, de pai libanês, eledecidiu deixar o Brasil em 1979 e rumou para a Europa, ondepassou um ano na Espanha e três na França, período marcado peloestudo das literaturas hispano-americana e francesa. O contatopermitiu que encontrasse seu caminho literário, em que o textoimpressiona pela verticalidade e a delicadeza na composição doenredo e dos personagens. Crítico contumaz dos próprios textos, publicou por oraapenas dois romances, com um tempo considerável separando-os:Relato de um Certo Oriente foi lançado em 1990, recebendologo o prêmio Jabuti de melhor romance, além de traduzido paracinco idiomas. Dez anos depois, surge Dois Irmãos,despertando um interesse ainda maior e que agora decola emcarreira internacional. Ainda em 2000, Dois Irmãos foi lançado em Portugal,pela editora Cotovia. No próximo mês, sob o selo da Bloomsbury(a mesma que lançou a série Harry Potter), sai naInglaterra. Em junho, será a vez dos Estados Unidos, pela Farrar Straus & Giroux. Em árabe - No segundo semestre, deve sair na Alemanha,pela Suhrkamp, que também vai reeditar o Relato, com outrotítulo: Brief aus Manaus (Carta de Manaus). Ainda nestaépoca, haverá lançamento na França (pela Seuil), Holanda (Atlas)e no Líbano (Dar al-Farabi). E, no próximo ano, será a vez dosleitores da Espanha, por meio da Akal, que recentemente publicouo Relato. Mais que o despertar do interesse de outros idiomas pelasua obra, Milton Hatoum sente-se satisfeito pela qualidade dotrabalho dos tradutores. "Sou um afortunado, pois meus livroscaíram em boas mãos, comenta o escritor, tirando proveito docontato que manteve com cada um. O diálogo com os tradutores éimportante, uma via de mão dupla. Um bom tradutor sugere coisasque podem melhorar o original. Ele lê o texto com uma lupa namão e vai encontrando formas mais eficazes, às vezes até maisinventivas, de dizer a mesma coisa em outra língua." As modificações da próxima edição de Dois Irmãos,por exemplo, surgiram a partir do contato com John Gledson,responsável pela versão que será publicada na Inglaterra eEstados Unidos, e Karin von Schweder-Schreiner, tradutora para oalemão. "Além do domínio absoluto da língua portuguesa, o quegarante a qualidade do trabalho, eles propuseram maisfacilidades para o entendimento do texto, como um glossário paraas expressões amazônicas." O mesmo procedimento será tomado por Safa AbouchahlaJubran, professora da Faculdade de Letras da USP, que vemcuidando da versão em árabe. Hatoum havia determinado que atradução deveria ser feita a partir do português e não de umaversão intermediária, como do inglês ou francês. Assim, Safa,que conhece com profundidade as diferenças entre o árabe e oportuguês, especialmente as estruturas sintáticas, tornou-se aresponsável pelo trabalho. Ela já havia traduzido o contoReflexão Sobre uma Viagem Sem Fim, publicado comexclusividade pelo jornal O Estado de S. Paulo em 1998, paraduas revistas do mundo árabe, a Nizwua, de Omã, e Sutur,do Cairo. Os lançamentos no exterior vão coincidir com uma viagemde Hatoum para os Estados Unidos, no fim de junho, quandoparticipa de congressos literários. O deslocamento vaiinterromper a produção do novo romance, cujo início e fim jáestão escritos. Essa forma é peculiar no trabalho de Hatoum."Se eu não souber como começa e termina a história, não consigoescrever", explica. "Assim, consigo armar melhor a estruturado enredo." Euclides - O rigor com a escritura, porém, continua.Hatoum interrompeu, por exemplo, o livro que escrevia para acoleção Literatura ou Morte, da Companhia das Letras, cujopersonagem principal é o escritor Euclides da Cunha. "Ele mevenceu", brinca. "Acho ainda prematuro falar sobre oEuclides." Hatoum termina, porém, um ensaio sobre o autor deOs Sertões (obra que chega ao centenário neste ano),especialmente sobre sua passagem pela Amazônia em 1905, quando,visionário, percebeu que a semi-escravidão dominante nosseringais impedia o progresso. "Espero publicá-lo até o próximoano." Surpreendente para um autor que publica obras em umtempo espaçado, Hatoum será lido ainda no conto Vergonha,que vai participar de uma nova coleção organizada pela Companhiadas Letras, chamada Juventude, a sair a partir do próximosemestre. Trata-se de uma série dedicada aos jovens leitores,apesar de o texto de Hatoum não ser tão específico. "Trata-sede uma história que pode interessar pessoas de outras idadestambém", acredita. E, se não bastasse a quantidade de lançamentos paratornar fervilhante o ano, o escritor também é assediado porcineastas interessados em levar sua obra para o cinema. "Járecebi contatos, mas ainda não acertei nada", conta ele, queimpõe exigências para liberar os direitos. "Sempre há riscoquando acontecem versões cinematográficas, mas vou levar emconta a sensibilidade e o interesse do cineasta pelo livro."Serviço - A Construção do Romance, curso de Milton Hatoum.Terça e dias 12, 19 e 26 de março. Centro UniversitárioMaria Antônia, Rua Maria Antônia, 294, tel. 3255-7182. Amanhã, às 20h

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