Millôr, pai de gerações

Desenhistas do Estado homenageiam Millôr Fernandes, morto na terça-feira

CÁSSIO LOREDANO, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2012 | 03h09

Millôr Fernandes foi um autodidata brilhante, intelectualmente muito curioso de vários campos e estudiosíssimo - o que explica como o pequeno órfão de família sem maiores luzes do Méier, zona norte carioca, tornou-se o intelectual de vasta cultura da Praça General Osório, em Ipanema.

Millôr era um homem de convívio afável e obviamente divertido, mas também bastante vaidoso e autocentrado. É notável a frequência de "eu", "meu/minha", "me", "mim", "comigo" em seus prefácios, introduções e apresentações. E com que genuína satisfação recebia a admiração e as homenagens que lhe prestava o círculo que frequentava. Mas se isso denuncia uma necessidade de autoafirmação tão frequente em autodidatas, também revela a perfeita consciência que tinha de seu alto valor. (Um aviso, por exemplo, que vai poupar tempo e deslocamentos aos futuros pesquisadores de sua obra oceânica: todo o seu trabalho publicado se acha reunido em coleções caprichosamente encadernadas num único lugar, a maravilhosa biblioteca de seu estúdio da Praça General Osório a que tantas vezes recorri. Além, é claro, dos originais, organizados em várias mapotecas).

Millôr é o pai do moderno humorismo brasileiro, inventor da profissão que sucedeu a dos desenhistas de calungas e trocadilhistas ingênuos da primeira metade do século 20. Quando o desencanto com os horrores da 2ª Guerra produziu, no Hemisfério Norte, Saul Steinberg, André François - e, mais tarde, Tomi Ungerer, Robert Crumb, Sempé, a acidez da caricatura inglesa contemporânea e um humorismo pessimista, cerebral e sardônico -, nós tivemos a sorte de ganhar um Millôr Fernandes, reconhecido mentor de gerações como as de Jaguar, Ziraldo, Fortuna, Henfil, Claudius, Verissimo, Caulos, Chico Caruso e este escriba, além dos que, a partir de agora, passarão a refletir sobre sua vasta influência no cenário intelectual brasileiro do pós-guerra. E isso para ficar apenas no campo de sua atividade, digamos, jornalística.

Estudando sozinho, Millôr chegou a se tornar um bom latinista. Quando o Nássara morreu, veio e me disse "ars longa vita brevis". A vida dele próprio veio até terça-feira. Seu legado vai muitíssimo lá para a frente e é uma sorte e uma riqueza para o País.

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