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Militão de Azevedo em um retrato de corpo inteiro

Como deve ter sabido pelo telégrafo no dia 15 do corrente, almocei monarquista e jantei republicano. Isso mostra que as coisas por aqui se fazem rápidas como o século que elas representam: eletricidade e caminho de ferro. Essas palavras poderiam ter sido retiradas do discurso de um estadista, ou das manchetes dos jornais que estampavam, em finais do século 19, e com certa cautela, a mudança de regime: a realeza não governava mais o país, mas ainda não se sabia o que esperar da República. O clima era de perplexidade diante de tantas novidades, que, com certeza, não se resumiam à área da política, e agora incluíam também a cultura e, em especial, as novas tecnologias. Progresso era palavra de ordem e a eletricidade, simbolizada pelo trem de ferro, transformava-se em ícone dessa nova era dada a mudanças rápidas. Aí estava um dos grandes desafios daquele fim de século, que tinha na velocidade e na rapidez suas palavras de ordem.

LILIA MORITZ SCHWARCZ, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

Hora de sabermos mais acerca do autor da contundente citação com que iniciamos a resenha. Militão Augusto de Azevedo foi fotógrafo de profissão, numa época em que tal técnica parecia representar, por si só, essa era dos avanços imperiosos. Muito mais ligeira do que a pintura a óleo, a nova técnica começava a desbancar a arte do pincel, sobretudo no gênero do retrato, com suas promessas de eficiência e fidedignidade. Carioca radicado em São Paulo, essa capital até então pouco vistosa, Militão logo se imporia por sua virtuose na arte e originalidade no comércio. Sua técnica era invejável, seu atelier muito bem equipado, assim como se destacavam seus métodos arrojados na conquista de clientela ou na mercantilização de seu produto. Por essas e por outras é que personagem e cidade combinavam; formavam belo par.

Mas a modernidade paulistana não correspondia exatamente ao padrão esperado. Se o Rio de Janeiro, a antiga corte e atual capital federal da República, mais se parecia com um cartão-postal, que unia monumentos majestosos herdados do Império com as novidades que só a modernidade poderia trazer; já São Paulo conservava o ar de uma capital provinciana, carente de muitas benesses e destituída do glamour de uma nobreza recente, que desenhava sua condição privilegiada nas vestes, nos hábitos mundanos ou nas novas práticas sociais.

Clicar essa cidade de barro, onde conviviam sinais dos novos tempos com traços do renitente perfil colonial, que insistia teimosamente em perdurar, era tarefa de Militão; um artista e artesão de sua arte. O fotógrafo padecia, porém, de uma espécie de "complexo de Paris", uma vez que se a realidade com a qual lidava era brasileira (e pior, paulistana), a imaginação mantinha-se europeia. Ou seja, nosso artista, sem se afastar de seu contexto ou da atmosfera local, tentava veicular uma imagem progredida da nova urbe. Entretanto, o que sua lente acabava por gravar era um movimento diverso de progresso, uma vez que conviviam temporalidades variadas: a pressa desse final de século, com a morosidade do rodar das carroças e da poeira; a era da miríade de invenções, com uma população pouco acostumada a tanta novidade. O fato é que sua clientela não era tão elegante como gostaria de apostar, assim como São Paulo escapava do modelo que idealizava.

É essa personagem fascinante, mas em tudo contraditória, que Íris Morais Araújo persegue, tal qual detetive atento a qualquer sinal que lhe permita perscrutar o mistério que envolve a vida e a profissão de Militão. Nada parece escapar ao olhar da pesquisadora em Militão Augusto de Azevedo, que descreve o contexto, analisa a biografia, escarafuncha a técnica. Cruzar fontes é tarefa dessa antropóloga vestida de historiadora, que além de analisar as fotos de Militão, explora cartas legadas pelo artista, assim como recupera um velho "Índice", que acaba por se transformar num mapa das redes de sociabilidade construídas, não sem dificuldades, pelo fotógrafo.

Em vez de engrossar "o coro dos contentes" - daqueles que identificam nas fotos de Militão apenas sinais do progresso e de otimismo diante da evolução social e urbana experimentada em São Paulo -, Íris Araújo parece mais desconfiar do pacote. Afinal, Militão era contraditório como o contexto em que viveu: se o fotógrafo encantou-se com a possibilidade de desenhar São Paulo como uma corte futura - republicana até -, de alguma maneira estranhou a excentricidade da urbanização local. Por isso mesmo, a noção de progresso passa a ser pensada no plural: como começo de conversa e não conclusão do tipo "viveram felizes para sempre".

Tomemos, por exemplo, os dois conjuntos de fotos produzidos pelo fotógrafo. Diante do espetáculo desse mundo ligeiro, Militão pretendeu fazer as vezes de um mago do tempo, e procurou fixá-lo a partir de dois momentos distintos. Fotografou as mesmas paisagens e em dois contextos - 1862 e 1887 -, nesse que seria seu Álbum comparativo. O projeto parece lembrar as (hoje) famosas propagandas populares, do tipo, "antes e depois". O objetivo parecia evidente: documentar a quantidade de mudanças que alteraram a paisagem paulistana, de maneira a demonstrar o efeito curativo e benéfico do progresso. No entanto, como argumenta a autora, o resultado mostrou-se distinto, já que desnudou uma espécie de "progresso às avessas", que anotava possibilidades latentes mas reagia ao tempo lento que tornava a capital paulistana sonolenta.

As lentes afiadas de Militão captam, portanto, mudanças aceleradas, mas também continuidades, como se progresso fosse uma panaceia fácil de imaginar, porém difícil de alcançar. De um lado, o fotógrafo teria sucesso, transformando-se num intérprete reconhecido da futura metrópole. De outro, porém, tornava-se cada vez mais evidente seu lugar social destoante. Estrangeiro num local repleto de estrangeiros, por conta da acelerada entrada de imigrantes, as fotografias e os registros escritos por ele legados, mostram um descompasso e desconforto diante da paisagem que suas máquinas registravam e condenavam à posteridade, e a derradeira conclusão de que certas condições da cidade estavam ali para ficar. Basta lembrar dos ex-escravos, que apareciam nas imagens, ora de maneira imprevista, ora como desajustes no foco, tal a dificuldade de enquadrá-los. Aí está uma grande contradição, exposta como se fosse ferida difícil de cicatrizar: afinal, só se previa evolução a partir do silenciamento de uma parte significativa da população. Por outro lado, progresso técnico não combinava com a cidade dos andarilhos, a novidade da eletricidade pouco valia diante dos pântanos e charcos que assolavam a cidade.

Militão era evidentemente uma personagem estranha. Após a leitura desse livro, ele não surge mais como arauto fácil do progresso. Representante de "uma técnica moderna", Militão continuou atado moralmente ao Império, e a uma ética vinculada ao modelo da legitimidade do poder régio. Talvez por isso a República não lhe encantava e seus representantes não mereciam mais do que o apelido, nada abonador, de "gatunos".

Definitivamente, Militão não sai bem nessa foto, assim como a modernidade paulistana resta pouco fotogênica. Ao fim e ao cabo, se a obra fotográfica de nosso amigo ganhou notoriedade, o resultado do retrato de corpo inteiro, presente nesse livro, acabou lhe conferindo uma imagem tremida; pouco fotogênica. Nada como assistir, de camarote, o espetáculo titubeante e de difícil doma da modernidade e do progresso.

LILIA MORITZ SCHWARCZ É PROFESSORA DE ANTROPOLOGIA DA USP E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE O SOL DO BRASIL: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY E AS DESVENTURAS DOS ARTISTAS FRANCESES NA CORTE DE D. JOÃO (COMPANHIA DAS LETRAS)

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