Luciana Avellar/Divulgação
Luciana Avellar/Divulgação

Militante, mas sem partido

A ministra que nasceu Anna, virou Ana e sempre esteve próxima da vida política do País

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2010 | 00h00

"Era nossa irmã comunista de carteirinha", lembra a irmã mais velha Miúcha, também cantora. A pequena Anna Maria, paulistana que nasceu quando os Buarque de Hollanda moravam na Haddock Lobo, sempre foi idealista e batalhadora, na visão dos irmãos. Ligada ao Partido Comunista, nunca esteve distante da vida política do País.

Ana morou na Itália com os pais, quando Sérgio Buarque de Holanda foi dar aulas na universidade. Ao voltar, viveram em três endereços diferentes em São Paulo, o último deles na famosa casa da Rua Buri - que diversas administrações públicas já cogitaram transformar num museu ou num centro de referência sobre a família. A cantora também estudou em Cuba.

Pela ordem de nascimento, os filhos de Maria Amélia e Sérgio Buarque de Holanda são os seguintes: Miúcha, Sérgio, Álvaro, Chico, Maria do Carmo, Anna Maria e Cristina. De seu primeiro casamento, nasceram os filhos Ruth (que trabalha atualmente no projeto Candeal, de Carlinhos Brown, em Salvador) e Sérgio (gerente comercial). Ambos também têm filhos: Ruth é mãe de Ana e Sérgio é pai de Téo. No começo do ano, nasce o segundo filho de Sérgio, Bernardo, o terceiro neto da nova ministra da Cultura.

"Ela tem vários planos. Provavelmente vai retomar o Projeto Pixinguinha, que fazia circular artistas. Dava trabalho para armar, mas era uma coisa legal. Já está trabalhando, está cheia de ideias", disse Miúcha sobre a irmã recém-nomeada primeira ministra da Cultura. "Assumir o ministério é sempre um pepino, seja quem for que esteja indo para lá. Mas ela é bem mais animada que eu e tem um histórico de administração ligada à cultura, está bem preparada", afirmou.

Para o ator Antonio Grassi, com quem Ana trabalhou na Funarte até 2005, a principal qualidade de Ana de Hollanda reside no fato de que ela tem consciência "de todos os avanços conseguidos até agora" no governo Lula. "Sua ideia não é desconstruir o que já foi feito, mas dar continuidade e aprimorar, ir adiante. Foi-se uma etapa, é preciso avançar", afirmou.

"Tenho muito respeito pela trajetória de seriedade dela. É uma pessoa consequente, respeitável. Não sei qual é o projeto dela de governo, então fica difícil avaliar. Mas tem todo meu apoio", disse a atriz Esther Góes.

Além da Funarte e do MIS (Museu da Imagem e do Som), no Rio de Janeiro, Ana foi dirigente no Centro Cultural São Paulo, órgão da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, entre 1982 e 1985. Também foi secretária de Cultura de Osasco/SP entre 1986 e 1988. Em âmbito nacional, foi diretora da Funarte entre 2003 e 2007. Nessa época, reativou o Projeto Pixinguinha. Também conduziu o Projeto Orquestras, o Projeto de Circulação de Música de Concerto, o projeto Concertos Didáticos, o Programa Nacional de Bandas, o projeto Painéis de Bandas de Música, o Pauta Funarte de Música Brasileira e a 15.ª e 16.ª Bienais de Música Brasileira Contemporânea, no Rio.

"Ela pertence a uma família de intelectuais e artistas que tem tudo a ver com aquilo que consideramos cultura. Não é uma família que está em um patamar elitista da cultura, mas que busca suas raízes desde os primórdios", define Frei Betto, que é amigo da família Buarque de Holanda desde 1966. Ele discursou na recente morte da mãe de Ana, Maria Amélia. "Primeiro, com o trabalho do pai sobre as raízes do Brasil; em seguida, com Chico e sua irmã Cristina, cuja música tem grande aproximação com o morro, com os subúrbios. Ana não traz na testa um carimbo partidário, e tem essa consciência do Estado como indutor do processo cultural; o Estado não como um controlador, mas como um ente que possibilita total liberdade artística. Não é privatista nem elitista", disse Betto.

Muitos observadores da questão cultural acreditam que o que está em jogo na mudança é o foco virando-se da filosofia "tropicalista" para uma ética "militante". Ana tem dito a interlocutores que não lhe interessa esse "enquadramento" do ministério e que o importante é dar condições para que a cultura possa se desenvolver autonomamente e que ganhe contornos de questão de Estado - que ela define num invólucro de "ação sociocultural".

Outro grande desafio será formar um "time" competente para gerir os desafios da Cultura - que tem diversos organismos vinculados, como o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e o Ibram (Instituto Brasileiro de Museus). A maior parte dos gestores é formada pela gestão Gil-Juca Ferreira, embora vinculados a diversos partidos, como o PT e o PC do B. Se optar por manter parte dos seus secretários, garantirá um princípio de continuidade, mas se mudar tudo, a "engrenagem" demorará um pouco para deslanchar novamente.

Também cumprirá a Ana de Hollanda estabelecer novo vínculo com as empresas que mais investem em cultura no País, como a Petrobrás (na qual a gestão atual tem bom trânsito). É uma das maiores fontes de recursos privados do País - na semana passada, divulgou o resultado da segunda fase das seleções públicas do Programa Petrobras Cultural, para o qual destinou uma verba de R$ 52 milhões. Foram contemplados 149 projetos de 18 Estados, abrangendo 16 áreas. Muitos dos mecenas importantes da área, como Jorge Gerdau e Milu Villela, apoiaram o movimento Fica Juca.

Há compressas ainda a serem aplicadas entre a classe artística. Outro entre os grandes artífices do frustrado movimento Fica Juca, o maestro John Neschling declarou: "A gestão de Juca Ferreira como ministro foi das melhores, senão a melhor das últimas gerações de ministros da Cultura. Comportamento democrático, republicano, discussões com a sociedade, reflexão sobre política cultural e a razão e forma das políticas de incentivo. Tenho a expectativa que ela continue com o excelente trabalho de seu antecessor e desejo boa sorte."

Como cantora e compositora profissional, ela gravou quatro discos e tem interpretações em diversas obras coletivas, além de várias obras suas gravadas por outras cantoras. Já se apresentou em todos os Estados brasileiros e em diversos países, como França, Cuba, Uruguai e Angola. Como atriz, atuou em vários espetáculos no Brasil e em Cuba. Entre 2001 e 2003, a partir de um projeto original, trabalhou na produção executiva e na pesquisa do documentário Raízes do Brasil - Uma Cinebiografia de Sérgio Buarque de Holanda.

 

 

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