Militância política perde um guerreiro

Morre em Paris, aos 91 anos, Chris Marker, renovador do curta e do documentário na França

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2012 | 03h11

Chris Marker morreu domingo em Paris, no dia de seu 91º aniversário. Um dos primeiros a render homenagem ao grande artista foi o presidente do Festival de Cannes. Gilles Jacob escreveu, numa mensagem na rede social Twitter - "O mundo ficou órfão de um cineasta incansável, poeta enamorado dos gatos, personagem secreto, imenso talento." A linguagem telegráfica do Twitter não dá conta da complexidade e importância de Marker como renovador do curta-metragem e do documentário na França, nos anos 1950 e 60.

Outsider da nouvelle vague, ele não se identificou com o movimento de renovação do cinema francês, mas foi um de seus arautos. Estreou em parceria com Alain Resnais, no curta Les Statues Meurent Aussi, em 1952, que já antecipa o que será um tema recorrente de sua obra - a memória. Com Resnais, fez outro curta, Le Mystère de l'Atelier e, em dupla com Walerian Borowczyk, assinou Les Astronautes. Munido da câmera, Marker viajou à China, a Cuba e à então União Soviética. Fez filmes como Dimanche à Pékin, Lettre de Sibérie e Cuba, Si. Todos esses filmes se tornaram clássicos, mas Jean Tulard faz uma observação pertinente em seu Dicionário de Cinema - colados demais à atualidade da época, de alguma forma ficaram datados. Isso talvez diminuísse a admiração pelo cinema de Marker, mas aí ele fez La Jetée, em 1962.

Embora curta, a ficção científica era tão benfeita que virou cult e inspirou Terry Gilliam a fazer seu longa Os 12 Macacos, de 1995, com Bruce Willis e Brad Pitt. Num mundo pós-guerra nuclear, fotos e filmes recriam a experiência de uma viagem no tempo e permitem a constatação - mesmo quando futurista, a obra de Marker revela uma curiosa nostalgia do passado. Isso fecha com o comunicado da Cinemateca Francesa. Emitido no próprio domingo, destaca que a arte do diretor combina a montagem poética com uma maneira original - desconhecida por volta de 1960 - de olhar o mundo.

O amigo Costa-Gavras destacou outro aspecto. O valor de testemunho do cinema de Chris Marker fundamenta-se na sua identificação com os movimentos operários e de libertação. Esse gosto pela militância o levou a se engajar na criação de projetos coletivos como Loin du Vietnam. Realizado em 1967, o longa reúne episódios de Marker e Resnais, e também de Joris Ivens, Jean-Luc Godard, Agnès Varda, William Klein e Claude Lelouch, para criticar o interverncionismo norte-americano no Sudeste Asiático. Esse mesmo desejo de militância o levou a fazer, em 1977, Le Fond de l'Air Est Rouge, em que discute as utopias revolucionárias que motivaram sua geração, e entraram em crise no pós-68.

Você pode ver no YouTube o clipe com este título - em torno da célebre sequência da escadaria de Odessa em O Encouraçado Potemkin, de Sergei M. Eisenstein, Marker faz uma súmula do protesto (e da repressão) no século 20. A nova configuração do mundo pós-comunista - e a consolidação do mundo global, com sua economia de mercado - não o fizeram desistir. Em 2009, o CCBB exibiu uma retrospectiva de seus filmes e, naquele mesmo ano, no MIS, Museu da Imagem e do Som, a exposição Staring Back (De Olho no Passado) apresentou 200 fotos feitas entre 1952 e 2006, desde personalidades até gatos, que na cosmologia do autor, estão entre as "divindades dominantes e enaltecidas acima dos meros seres humanos". Atualmente o Recife sedia, na Fundação Joaquim Nabuco, o evento O Legado da Coruja, uma série de 13 episódios que Marker concebeu como intervenção nas TVs da França e da Inglaterra, em 1989.

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