Militância começa em casa

"A Culpa é do Fidel" está em cartaz em três salas de cinema da capital paulista, mas o boca-a-boca tem feito do primeiro filme de ficção da filha do aclamado diretor grego Costa Gavras, Julie Gavras, um improvável sucesso de público. O longa tem potencial para repetir a performance de permanência nos cinemas do argentino "A Filho da Noiva", dirigido por Juan Campanella, que ficou mais de um ano em cartaz.Adaptação da autobiografia da jornalista italiana Domitilla Calamai, o filme gira em torno de Anna, 9 anos. A menina parisiense, que tem uma vida tranqüila e confortável, é surpreendida pela opção política de seus pais. Certo dia, ela descobre que eles viraram comunistas. Anna não sabe muito bem o que isso significa, mas a opção política dos pais faz a vida de Anna virar de ponta-cabeça. O colégio religioso que freqüenta, por exemplo, a proíbe de assistir às aulas de catecismo. Além disso, a menina tem de acompanhar a família em passeatas, aprender a levar uma vida mais ?comunitária? e entender conceitos como ?solidariedade?. Não é apenas sobre política, mas, principalmente, sobre afeto esse primeiro longa-metragem Julie. Por isso, a reportagem decidiu procurar uma família nos mesmos moldes daquela mostrada no filme. Apesar do contato com os partidos de esquerda, a personagem foi encontrada por meio de um sindicato chamado Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas). AfeiçãoMaria Valéria Sarmento Coelho da Paz, 53 anos, conhecida como Belela, é funcionária do Banco do Brasil, sindicalista filiada à Conlutas e membro do PSTU. Em seu apartamento na zona sul da capital paulista, nas paredes da sala, quadros de Che Guevara, Lenin e Trotsky. Sobre o sofá, uma almofada do filme "Adeus, Lenin". Na estante de livros, Karl Marx e outros. Nada de TV. ?Silvio Santos e Big Brother não entram na minha casa?, disparou Belela. De tanto ouvir discussões sobre liberdade, com apenas cinco anos, a filha Júlia Coelho da Paz Almeida, 21 anos, surpreendeu a mãe com o seguinte comentário: ?Tem duas estações do Metrô com nomes parecidos: Liberdade e Paraíso.? Aos 10 anos, a menina visitou um acampamento de sem-terra. Aos 14 anos, veio a indecisão. Ela não sabia se devia ler "100 Anos de Solidão", de Gabriel García Márquez, ou o "Manifesto Comunista". Acabou ficando, claro, com a segunda opção. Belela acha que a filha decidiu ser realmente uma militante de esquerda quando foi para o Fórum Social de Porto Alegre, em 2003. Hoje, mesmo com a queda do muro de Berlim e a ?virada de casaca? de antigos companheiros, Belela, Julia e Miranda ainda defendem os ideais comunistas. ?Tem gente que diz: ?poxa, vocês são tão legais... por que são comunistas???, comenta Belela. ?Explico que não acredito em mudanças dentro do sistema capitalista. Isso precisa mudar e...? A entrevista chegou ao fim nesse ponto. Assim como o filme, nossa matéria é muito mais sobre afeto do que sobre política.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.