MILIONÁRIA

Um dos maiores espetáculos da Broadway, O Rei Leão estreia em São Paulo e se torna um marco

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2013 | 02h12

A estreia de O Rei Leão hoje à noite, no Teatro Renault, encerra mais uma fase da consolidação dos musicais no Brasil - e em São Paulo, em particular. O espetáculo dirigido e concebido por Julie Taymor traz uma riqueza de detalhes técnicos cuja realização não apenas justifica o alto investimento de produção (R$ 50 milhões) como comprova a qualificação dos profissionais brasileiros.

"É impressionante como tudo acontece perfeitamente sincronizado, sem problemas", observou o ator Saulo Vasconcelos, que acompanhou, anteontem, uma apresentação para convidados. Ele faz parte da 'primeira geração' dos musicais brasileiros, um seleto grupo de intérpretes que ajudaram a formatar o gênero em São Paulo. Vasconcelos, que fez A Bela e a Fera (2002) e principalmente O Fantasma da Ópera (2005), primeiro megassucesso, estava na plateia formada ainda por outros pioneiros como Marcos Tumura, protagonista de Les Misérables (2001), o musical que fincou as fundações nacionais desse tipo de espetáculo; Daniel Boaventura (A Bela e a Fera, Chicago, Evita) e Jonathas Joba (A Bela e Fantasma).

O Rei Leão não representa apenas um marco no Brasil - estreou na Broadway em 1997 e, em cartaz até hoje, logo se tornou um estrondoso sucesso, faturando cerca de US$ 4,8 bilhões e batendo nas bilheterias um super peso-pesado, O Fantasma da Ópera, que está há muito mais tempo na estrada (estreou em 1986). O curioso é que, no início do projeto, temia-se por um grande fracasso. "Fiquei com medo de que a montagem fosse algo como os personagens da Disneylândia, vestidos com a cabeça do Mickey Mouse", lembra Julie Taymor, que veio a São Paulo para acompanhar a estreia nacional.

O desastre foi evitado graças a medidas corajosas tomadas pela diretora. Quando foi convidada por Tom Schumacher (produtor e presidente da Disney Theatrical Productions, a produtora do espetáculo) para adaptar para o palco a animação, em 1996, Julie teve várias ideias que, na época, soavam arrojadas.

A primeira e mais essencial era não esconder os atores que interpretariam os animais. "Não queria fazer um musical ao estilo Disney, em que o segredo da fantasia não pode ser revelado", lembrou. "Meu desejo era que a plateia visse o ator manipulando o boneco e criasse sua própria fantasia."

Assim, ela promoveu, no palco, a mistura de elementos de arte e artesanato africano para retratar personagens antropomórficos - ao lado do designer Michael Curry, Julie criou centenas de máscaras e fantoches, que se amoldam ao corpo de cada ator. E, além das canções criadas por Elton John e Tim Rice (traduzidas aqui por Gilberto Gil), o espetáculo possui diversas músicas no idioma zulu.

A história é fiel à trama da animação e conta a trajetória de Simba, pequeno leãozinho filho de Mufasa, que governa a floresta. O nascimento do jovem desperta a ira de Scar, irmão do rei, pois diminuem suas chances de herdar a coroa. Assim, bem ao estilo Hamlet, Scar mata Mufasa e acusa Simba de permitir a morte do pai. O rapaz é obrigado a fugir do reino e amadurece à distância, até chegar o momento de voltar e retomar o poder.

"O que mais me fascina em O Rei Leão é sua capacidade de transcender cultura e raça", comenta Julie, empolgada quando soube que o musical ganharia uma versão brasileira. "Aqui, a cultura africana ecoa de forma natural, o que é fundamental para um entendimento mais rápido e profundo pela plateia brasileira."

A sensação de participar de um projeto que se tornaria histórico contagiou até mesmo ilustres veteranos, como o letrista Tim Rice, que conta com Evita e Jesus Christ Superstar em seu currículo. "O sucesso do musical se explica porque a história está centrada no rei", comentou ele, que também participou da estreia para convidados anteontem à noite, em São Paulo.

Como não poderia ser diferente, todos os números que cercam O Rei Leão são grandiosos. A começar pelo elenco com 53 atores, dos quais 11 sul-africanos. Nas audições, cerca de 2 mil candidatos concorreram aos papéis e os principais escolhidos foram Tiago Barbosa (Simba), Osvaldo Mil (Scar) e César Mello (Mufasa) - a africana Phindile Mkhize, que passou por intensas aulas de língua portuguesa, vive o macaco Rafiki.

Em meio a tanta parafernália, Osvaldo Mil resume a essência do musical, que explica seu sucesso: "A história de pai e filho mexe profundamente com a plateia".

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