Milênio termina sem intelectuais

Aqueles que o Aurélio define como pessoas com "gosto predominante ou inclinação pelas coisas do espírito, da inteligência" passaram séculos e mais séculos sem o rótulo que afinal, dizem, lhes foi dado pelo jornalista e estadista francês Georges Clemenceau, há pouco mais de cem anos. Verdade ou apenas bazófia do proverbial jacobinismo francês? É certo que a expressão russa "intelligentsia" espalhou-se pelo Ocidente através da França, mas lorde Byron já falava em intelectuais ("Espero estar bom de saúde para ouvir esses intelectuais") sete décadas antes de Clemenceau assim qualificar os escritores, filósofos, universitários, artistas e cientistas que se uniram em favor da revisão do processo e da reabilitação do capitão Alfred Dreyfus, injustamente condenado de espionagem em favor dos alemães em 1894.Ao que tudo indica - e a frase de Byron é uma prova disso -, os ingleses costumavam empregar a expressão intelectual (do latim "intellectuale") pejorativamente. O que me leva a crer que os franceses "apenas" inventaram o intelectual no bom (ou no melhor) sentido da palavra: aquele sujeito sensível, inteligente e culto que, quando necessário, sai de seu casulo mental, desce de sua torre de marfim, e entra na arena como um gladiador armado de idéias, paixão e eloqüência, cujo exemplo máximo, no fim do século 19, foi o escritor Emile Zola.O autor de Eu Acuso é um dos protagonistas de O Século dos Intelectuais, alentado inventário de 920 páginas do historiador parisiense Michel Winock, premiado com o Médicis de Ensaio em 1997, que acaba de ser traduzido - aliás, muito bem traduzido por Eloá Jacobina - para a Bertrand Brasil (R$ 79). O século dos intelectuais foi o que acabou alguns dias atrás. Basicamente porque ao longo dele a cultura escrita passou a dispor de uma difusão em massa e a força das idéias teve sua importância irremediavelmente reconhecida no maëlstrom político.Winock só se ocupa de seus patrícios pela simples razão de que nenhum outro país produziu tantos intelectuais direta ou indiretamente atuantes no campo político como a França. Seu cartapácio não é uma história das idéias, a não ser de forma indireta, nem uma análise da produção cultural durante os últimos cem anos, e sim uma história das guerras intelectuais, dos confrontos ideológicos que opuseram romancistas, poetas, filósofos, artistas e quejandos, entre o Caso Dreyfus e o manifesto Os Intelectuais e os Poderes, subscritado, entre outros, por Edgar Morin, Georges Duby, Marc Ferro, Paul Veyne, Jean Cassou, Octavio Paz e Noam Chomsky, em 1973.O mais ardente e tenaz defensor de Dreyfus, Zola, em princípio, merecia ser a figura principal, o protagonista, se não o emblema dos primeiros anos do século dos intelectuais, mas o frio discernimento de Winock privilegiou o mercurial escritor e homem público Maurice Barrès (1862-1923), que, paradoxalmente, era um antidreyfusista dos mais convictos e furibundos. Zola, que lutou do lado certo, e Barrès, que perdeu aquela guerra, morreram praticamente com a mesma idade, mas Zola se foi antes, deixando duas preciosas décadas à disposição do rival - que delas se aproveitou à larga.Mesmo repudiando o nacionalismo fanático de Barrès, o socialista Léon Blum foi um dos primeiros a reconhecer sua formidável influência na França do fim do século 19. "Se Maurice Barrès não tivesse vivido, se não tivesse escrito, sua época seria outra e nós seríamos outros", escreveu em 1897, num artigo, para La Revue Blanche, em que comparava o romancista a Voltaire e Chateaubriand. "Tal como eles, Barrès criou e lançou ao mundo, que a acolheu, não o arcabouço provisório de um sistema, mas alguma coisa mais diretamente relacionada à nossa vida: uma nova atitude, um modo inusitado de pensar, uma forma de sensibilidade nova."Foi Blum quem procurou, pessoalmente, Barrès, na esperança de obter sua assinatura para uma petição a favor da revisão do processo que, três anos antes, condenara, degradara e despachara Dreyfus para a Ilha do Diabo. Barrès, que àquela altura ainda era amigo de Zola e outros dreyfusistas, recusou-se a apoiar o grupo. Alegava "estar com a França" e dar menos importância à Justiça do que à "preservação social" do país, "custe o que custar". Anti-semita declarado (e Dreyfus, como Blum, era judeu), dizia-se disposto a "proteger a raça francesa" de tudo e todos. O poeta Charles Péguy, morto nos primeiros confrontos da 1.ª Guerra Mundial, também era ultranacionalista, mas sem a caturrice xenófoba de Barrès e do protofascista Charles Maurras, fundador da pró-monarquista Action Française e outro totem reacionário do período, que viveu em demasia (morreu em 1952, aos 84 anos) e até entre os intelectuais brasileiros produziu discípulos.Dividido em três partes, o ensaio de Winock entroniza André Gide (1869-1951) como o sucessor de Barrès no altar dos intelectuais franceses, que, por sua vez, é sucedido por Jean-Paul Sartre (1905-1980). "Todos os três foram admirados, detestados, imitados, e marcaram sua época com uma influência que se estendeu por várias gerações", explica-se o historiador. Os três de fato "deixaram sua cicatriz no mapa", para usar uma expressão cara a André Malraux, não citada por Winock. Malraux, por sinal, é, como não podia deixar de ser, um dos destaques da terceira parte. Poucos intelectuais franceses foram tão engajados, atuantes (e oportunistas) como Malraux. Sartre, contudo, mais até do que Albert Camus, personalizou toda uma época que se inicia em 1945. "Ele é o supremo contemporâneo" (apud Jean-Marie Le Clézio), o catalisador de todas as grandes questões e discussões do pós-guerra, o mais sedutor, polêmico e produtivo maître à penser da segunda metade do século. Também para Sartre, nenhum outro intelectual francês representou melhor do que Gide a agitada França pós-Barrès. Ou seja, o período entre os dois conflitos mundiais, incluindo, claro, toda a 2.ª Guerra. "Todo o pensamento francês destes últimos 30 anos, independentemente de quaisquer outras coordenadas, Marx, Hegel, Kierkegaard, quisesse ou não, tinha de ser definido, também, em relação a Gide", escreveu Sartre em 1951, quando da morte do escritor. Entusiasta do comunismo, que abjurou depois de conhecer pessoalmente o embuste stalinista, homossexual assumido e anticatólico, Gide tinha o mesmo perfil contraditório do tempo em que reinou como figura-mestra da intelligentsia francesa. Tempo que Winock conhece como poucos, o que também explica porque toda a parte dedicada aos anos 30, conturbada por ferozes embates entre comunistas e fascistas, surrealistas de esquerda e de direita, militantes e libertários, colaboracionistas e resistentes - com Louis Aragon (stalinista empedernido), André Breton, Romain Rolland (outro que se desiludiu com a União Soviética), o monarquista e católico Georges Bernanos (que aplaudiu os falangistas espanhóis e depois denunciou as atrocidades fraquistas), Drieu la Rochelle (fascista até a morte), Robert Brasillach (o único intelectual colaboracionista executado na França) e outros tantos "clérigos" roubando a cena - é a mais interessante do livro. Clérigo (em francês, clerc) é o sinônimo de intelectual que Julien Benda usou no título de um histórico panfleto, La Trahison des Clercs, que em 1927 incendiou os arraiais lítero-políticos da conservadora França de Raymond Poincaré. Antecipando-se, de certo modo, ao que Rolland diria em 1940, após perder suas últimas ilusões com a União Soviética ("Um idealista nunca deveria prestar-se à política. Ele é sempre seu inocente útil e sua vítima. Servem-se dele, como de um chamariz para encobrir a podridão, as canalhices, as perversidades"), Benda achava o engajamento um vírus letal, sobretudo por considerar o intelectual um espírito desinteressado, "cuja atividade, em sua essência, não visa a objetivos práticos". Sartre, evidentemente, discordava disso. Não foi o único. Nem à esquerda, nem à direita.Sartre morreu há 20 anos. Três anos depois, foi a vez de seu mais notável opositor, Raymond Aron, e, no ano seguinte, de Michel Foucault. Sem protagonistas à altura e aparentemente privado de um contexto favorável a debates transcendentais, teorias totalizadoras e utopias, o século dos intelectuais chegou ao fim. E, com ele, segundo o discutível Jean-François Lyotard, o fim dos intelectuais. Não seriam a globalização, o "pensamento único" neoliberal e a imbecilização em massa promovida pela indústria cultural motivos bastantes para que o século que há dias teve início traga de volta à arena clérigos tão ou mais "traiçoeiros" que os de antigamente? Numa nota acrescentada à reedição de seu livro, em maio de 1998, Winock insinua que Pierre Bourdieu talvez possa ser o herdeiro do trono de Barrès, Gide e Sartre, embora não saiba ainda afirmar "se se trata de um epifenômeno mimético ou de um novo capítulo da história dos intelectuais". Mas recomenda: "Acompanhem."Acompanhemos.

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