Milano fashion cidade parou para ver a moda passar

Após edições inexpressivas, semana italiana ocupa a Piazza Duomo e recupera vigor em coleções de impacto

Flavia Guerra,

03 de outubro de 2010 | 00h10

Diz o ditado italiano: a casa mia si mangia quello che mangio Io (na minha casa, come-se o que como eu). Em Milão, si mangia moda, muita! E durante a Milano Fashion Week a cidade tradicionalmente parou para ver a moda passar. Mas desta vez, a parada foi especial. Depois de edições em meio à crise, de um calendário "que encolheu", a Camera Nazionale della Moda Italiana botou a casa em ordem e transferiu o centro nervoso da maior semana de moda italiana para o coração da capital da Lombardia: os arredores da Piazza Duomo. Então, com coleções boas ou não, só a vista para o mítico Duomo já valia a ida aos desfiles. Sem contar que, como sempre, telões espalhados pelo local transmitiam para os "barrados no desfile" o que rolava nas tendas armadas para abrigar os shows de grifes como Prada, Gucci, Cavalli, Armani... E para surpresa, os desfiles foram bons. Muito bons.

Já que isso de "uma só tendência" saiu de moda, agora é moda a "tendência das tendências múltiplas", capisci? Não. Então, simples, tendência e moda existem, claro, mas cada um faz a sua.

Entre coleções que mostraram por que é imbatível o duo "matéria-prima de qualidade e design impecável", a Prada foi destaque. Apostou em uma mulher arrojada, meio Carmem Miranda pós-moderna. Comandada por Miuccia Prada, exibiu uma mistura das formas sóbrias de uniformes de trabalho com a graça de babados, bananas, listras, flores e cores vibrantes.

Tops. Já a D&G surgiu de acordo com a tendência romântica. Domenico Dolce e Steffano Gabbana imaginaram um mulher delicada, vaporosa e literalmente vestida de flores. Inspirados no quadro LeDéjeuner sur l"Herb, de Edouard Manet, armaram um piquenique e trouxeram suas tops esvoaçantes em longos vestidos impecáveis. A atmosfera romântica, com muito de século 19, também pairou no ar do desfile de Alberta Ferretti, que trouxe muito nude e transparências revelando as curvas de suas tops-fadas.

Outra tendência, nem tão romântica, mas ainda assim muito colorida, surgiu na passarela da Gucci, que fez dois desfiles, um em seguida do outro, e anunciou: "return to seduction" (retorno à sedução). Bravo! A grife apostou nos tons néon acetinados (muito azul, amarelo limão, laranja) e a palavra de ordem: força, feminilidade e espírito mediterrâneo. Os vestidos em franjas, fendas, couros, camurça, cores fortes ou preto, e nude traziam ares de africanidade combinados com design preciso.

A Jil Sander também arrematou um ponto a mais. Sob a criação do estilista Raf Simons, evocou os maxi-volumes para criar um verão também colorido, mas, em vez de estampas, apostou nas "cores em bloco" e em saias e vestidos volumosos em tons rosa, laranja, roxo, verde e amarelo néon e mega-listras. Pode parecer contraditório, mas Simons criou um maxi minimalismo.

Voltando às tendências, como já mostram as coleções de Paris (que estão em pleno andamento), a mulher está sensual neste verão. Para "ajudar nesta tarefa", franjas. As controversas franjas, que deram o ar de sua graça há pouco em Londres, reapareceram na passarela da Gucci e foram a estrela da coleção de Roberto Cavalli. É... Elas parecem que vão mesmo voltar com tudo.

Efeito. Com força também estão as já citadas transparências. Tendência "sutil e sensual", o efeito translúcido fez sucesso na semana inglesa e reapareceu em Milão. Francesco Scognamiglio usou e abusou delas em seu desfile com muito volume nos ombros, mangas e mega-laços nas golas. Nas pernas, tudo curtíssimo. A propósito, Scognamiglio tem Lady Gaga, Madonna e é um dos queridinhos de Franca Sozzani, a "Anna Wintour" italiana. A Versus, segunda marca da Versace, desfilou pela primeira vez em dez anos. Assinada pelo inglês Christopher Kane, a coleção trouxe muitos vestidinhos, estampas de mini-flores (estarão por toda parte), xadrez, listras e cores, como mandam os ventos da estação.

Na contramão da "estação das cores", Dolce&Gabbana e Armani surgiram quase monocromáticas. A primeira fez talvez o mais delicado desfile da semana. Inspirada no tradicional corredo (o enxoval), que outrora era feito à mão pelas mães e noivas italianas, exaltou o trio "sicilianità, sartorialità e sensualità" (sicilianidade, alfaiataria - ou "costureria" - e sensualidade). Novamente a tradição encontrou o contemporâneo em uma coleção de encher os olhos de qualquer boa bordadeira do nordeste. Não por acaso, a renda Renascença nasceu na Itália e conquistou as brasileiras de ontem e de hoje. Com ares de Sophia Loren, as tops desfilaram vestidos sofisticados e solares. A tradição da renda ganhou contemporaneidade ao ser misturada com estampas florais e de leopardo, apliques de strass e alguns looks em preto.

Encerrando a semana, a Armani criou a Femme Bleu e se tingiu de azul, do mais claro ao mais profundo. Tão escuro quanto a noite no deserto que propôs. Para ser sexy no deserto, jaquetas, saias, tubinhos, vestidos drapeados, lenços e turbantes.

Como sugeriu Sozzani, a crise parece ter feito bem à criatividade dos fashionistas italianos. Além de terem sido assistidos por milhares de italianos em praça pública, suas novas coleções prometem, como manda a tendência, seduzir verdadeiras legiões. Bravo!

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