Milagres sonoros de Bach Helmuth Rilling

Maestro comanda leitura impecável da Missa no Municipal

O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2012 | 03h09

Obras como a Paixão Segundo São Mateus e a Missa em Si Menor transformaram-se em monumentos musicais independentes desde o histórico concerto de 1829 em Berlim, quando Mendelssohn regeu a primeira delas. Elas foram, no entanto, concebidas com sentido utilitário, ou seja, não visavam agradar a públicos anônimos em apresentações abertas, mas promover a elevação mística da comunidade dos fiéis reunidos no culto, na igreja. A mágica genial desta música é que, mesmo em situação de concerto como no Teatro Municipal de São Paulo, na última segunda-feira, ela renova o poder de unir músicos, cantores, regente e público numa autêntica comunidade. Não há milagre maior do que este.

Duplo milagre, aliás. O primeiro é a extraordinária música instrumental e vocal que desfila nas 25 partes da Missa, concebida num espaço de 16 anos: em 1733 Bach compôs o Kyrie e o Gloria; entre 1747 e 1749, reuniu partes de obras anteriores e compôs novas, completando uma missa católica para comemorar o fim da segunda guerra da Silésia.

O segundo milagre acontece quando o comprometimento dos músicos é tão intenso quanto seus talentos. Se Bach já nos transforma em fiéis adoradores da música, o coro e orquestra da Academia Bach de Stuttgart, os quatro solistas e o regente Helmuth Rilling nos arrebataram com uma interpretação impecável e eletrizante. Provaram que quando há talento verdadeiro pouco importa se os instrumentos são de época ou modernos (anteontem, eram modernos). A regência de Rilling é econômica e eficiente. Comando total da arquitetura de uma peça longa, que quase sempre ameaça fragmentar-se. O coro de perfeita afinação, num show de pianíssimo no Crucifixus; a ourivesaria precisa do dueto inicial Christe Eleison entre a soprano Julia Sophie Wagner e a contralto Roxana Constantinescu; o brilhante tenor Andreas Weller no Benedictus; e as irretocáveis primeiras estantes, desde o spalla Gernot Sussmuth até as duas flautistas, os três oboés e os dois fagotes, sem contar os trompetes: Max Westermann conseguiu ser perfeito também na trompa.

Memorável é adjetivo gasto. Melhor dizer que este concerto foi capaz de nos fazer voltar para casa com a sensação de que podemos sim ser humanamente melhores.

Crítica: João Marcos Coelho

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