'Milagres' do samba na casa de Mariene

Como já fizeram Clécia Queiroz e Roberta Sá, Mariene de Castro promete um álbum todo dedicado a composições de Roque Ferreira para o segundo semestre. Essa verdadeira baiana, que já dedicou várias faixas de seu primeiro CD, Abre Caminho (2004), a Roque, volta com outros bons batuques de seu conterrâneo, como Chico e Chica e Mamãe na Areia, em Santo de Casa - Ao Vivo.

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

Santo de Casa é o nome de um projeto que Mariene realiza há algum tempo durante o verão em Salvador, no Centro Cultural Barroquinha. "É um encontro da música do Brasil, trago samba de roda e manifestações do interior, e nisso aparecem grupos bem tradicionais, que estão escondidos na Bahia, de que ninguém ouviu falar, que são representantes da cultura popular." Como a provar que "santo de casa faz milagre", contradizendo o dito popular, seu interesse é mostrar "a preciosidade desses santos da casa, que são a matriz do samba."

Comparada diversas vezes a Clara Nunes, pela ligação com o candomblé, pela exuberância dos figurinos e da atuação no palco, Mariene reconhece afinidades entre ambas pelo interesse na cultura popular. Na Bahia, há quem ressalve que ela precisa tomar cuidado para não ficar estigmatizada por uma radicalização folclórica. Porém, contra os interesses de políticos, fanáticos religiosos e predadores da indústria da axé music - que ofuscam o samba e os blocos afros - é cada vez mais importante que Mariene se lance de cabeça nessa vertente da afro-baianidade, plena de religiosidade. "Eu canto samba porque vivo a cultura de minhas raízes", diz a cantora.

Além do mais, ela tem uma voz envolvente, potente e de longo alcance, o que, no transe com o batuque dos atabaques, é de um poder arrebatador, até para quem não é chegado nessas crenças. Isso ficou evidente em suas participações na turnê de Beth Carvalho (que virou sua madrinha musical) para promover o CD e DVD Canta os Sambas da Bahia.

Sambas e orixás. Cada vez mais popular e aprimorada, ela deixou um rastro de pólvora acesa no show do Festival de Verão de Salvador este ano, uma adaptação do que deu origem ao CD, gravado em setembro de 2009 no Teatro Castro Alves. Com a força dos orixás, ela canta pontos de candomblé, ciranda, samba de roda, maracatu, coco, ijexá, louvações a Iemanjá e a Oxum, clássicos de Dorival Caymmi e Geraldo Pereira e vários sambas de Roque Ferreira e parceiros, como Abre Caminho, Raiz e De Maré, incluídos em seu primeiro CD.

O DVD com a íntegra da gravação sai no segundo semestre e certamente causará melhor impressão sobre a força natural de seu canto e de sua presença em cena. "Ela entra no palco e uma força misteriosa entra com ela e transforma o palco num terreiro de luz", diz Roque Ferreira. Para ele, Mariene "é a sacerdotisa do samba".

MARIENE DE CASTRO

SANTO DE CASA

Independente

Preço: R$ 30

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.