Milagres de Ângela Ro Ro

Cantora finaliza DVD de inéditas, ganha tributo de cantores da cena indie de SP e, com 60 quilos a menos, celebra fase saudável longe do álcool e do cigarro

Mauro Ferreira - Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2013 | 02h13

"A música também fez milagres em mim, não foi só com a Baby, não", graceja Ângela Ro Ro antes de iniciar a entrevista ao Estado no térreo de seu prédio, no Rio. A cantora e compositora carioca cita Baby do Brasil, a colega baiana que voltou aos palcos em 2012 após anos de dedicação à religião, ao falar do próprio renascimento artístico. Aos 63 anos e 60 quilos a menos do que na época em que bebia e fumava, Ângela Maria Diniz Gonçalves se prepara para lançar repertório inédito em CD e DVD sintomaticamente intitulados Feliz da Vida.

Neste seu primeiro projeto fonográfico em sete anos, ela retoma a conexão com o pianista Antonio Adolfo e abre parcerias com nomes como Ana Carolina, Moska, Jorge Vercillo e Sandra de Sá. Paralelamente, o tributo masculino produzido pela gravadora paulista Joia Moderna, Coitadinha Bem Feito, joga luz sobre 17 canções do período 1979-1983, época áurea da artista, nas vozes de cantores como Criolo, Otto, Hélio Flanders, Lucas Santana, Rodrigo Campos, Lirinha, Rômulo Fróes e Thiago Pethit, entre outros nomes da cena indie de SP. Todos fãs dessa artista pioneira ao se assumir homossexual na música brasileira tão logo surgiu em 1979.

Nesta entrevista, Ro Ro faz o balanço de uma vida pautada por excessos nos anos 80 e 90, recorda como a mãe a salvou da morte provavelmente iminente, celebra o fôlego renovado e fala do DVD que tem regravação de Fogueira em dueto com Maria Bethânia.

Como a música fez milagre em você?

A bem da verdade, sempre vivi feliz comigo mesma, até nos piores momentos. Tive pais maravilhosos. Basta ter gosto pela existência.

Mas você parece mais em harmonia nos últimos tempos...

É que de uns anos para cá, estou vivendo melhor. Quando fiz 40 anos, eu estava uma porcaria. Aquilo não era vida. Bebia muito. E as pessoas não são tão boazinhas assim... Então, a gente fica mais à mercê da maldade. Continuo correndo riscos, só que estou mais forte. Mamãe estava com um câncer muito feio. E, uma semana antes de morrer, falou no telefone comigo: "Ângela Maria, sua mãe está caindo aos pedaços, mas você está um lixo". (risos) Eu pensei, devo estar um lixo mesmo. E ela continuou o sermão: "Você está sem fôlego para cantar, é uma vergonha". Realmente, estava sem fôlego. Fumava e bebia muito. Vinha me autodestruindo há décadas. E queria respirar, cantar, ficar mais bonitinha... Aí, comecei a me cuidar. Perdi 60, 62 quilos. Mas dei sorte, malandro... depois de ter levado muito sova da nossa proteção pública, que a gente paga para nos proteger, mas que nos espanca por homofobia... Vamos torcer para que os Direitos Humanos sejam mais bem defendidos aqui.

A propósito como você avalia a nomeação controversa do deputado Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias?

Não vamos citar nomes. Nenhum desses caras merece mais Ibope do que já tem. Se isso não é uma palhaçada, que diabo é isso? Mas voltando a mim, vi que de vítima eu não estava me saindo bem. Sou muito transparente para ser vítima. E não estou a fim de fazer acordo com meu algoz, com meus torturadores, os invisíveis e os sólidos. Então, minha mudança foi uma atitude espontânea de sobrevivência. Eu tinha que viver.

Embora você sustente que sempre esteve feliz como você mesma, a impressão em muitos momentos de sua vida era a de que você estava em agonia...

Sem dúvida! A década de 90 foi um inferno. Papai morreu, mamãe morreu, e parecia que eu estava indo logo atrás... Mas mamãe me salvou no telefonema que eu já citei. E sabe que deu certo? Eu caminho muito (bebe um gole d'água). A água é o mais sensacional drink do planeta.

Então estar com 63 anos não é um peso?

Não, é mais leve do que ter 43.

Teria agido diferente nos anos 90 se soubesse disso?

Se as pessoas, as contingências e os fatos tivessem sido diferentes, talvez tudo tivesse sido diferente. Mas não dá para ficar lamentando. Aos 43, eu não estava legal. Gostava de cantar, de fazer minhas escritas, meus poemas, que ainda vão sair em livro até 2014. Mas não gostava do que estava sentindo.

Em que pé está a pós-produção do DVD Feliz da Vida, gravado em 2012 no Rio?

Está no finalzinho da parte técnica. A gravadora Biscoito Fino está interessada em lançar o DVD. Decidi fazer um DVD enquanto tenho rock'n'roll para mostrar, enquanto dou meus pulinhos, enquanto estou dançando no palco...

Como se deu a abertura do leque de parceiros do repertório de seu CD e DVD Feliz da Vida?

Você subverteu a lógica revisionista do formato e gravou um repertório quase todo inédito...

Na verdade, me passou pela cabeça gravar uns lados B da minha discografia. Mas não parei de fazer música. E, em 2009, fiz duas parcerias importantes, duas artistas que admiro muito, Ana Carolina e Sandra de Sá.

Hoje você é contra as drogas?

Não sou contra nada. Sou a favor da vida. E minha verve musical não para. Em Opium, eu falo: "Miséria, me deixa em paz". E a miséria humana é você ser dependente de alguma coisa, seja cachaça, pó, crack...

Seu humor continua afiado.

Sim. É uma dádiva. O humor, ácido ou doce, é um dom que a natureza me deu. Para subir no palco, o humor é condição sine qua non.

Além do DVD Feliz da Vida, a gravadora Joia Moderna, do DJ Zé Pedro, lança este ano o CD Coitadinha Bem Feito, tributo à sua obra com cantores da cena indie de SP.

Alô, alô, Zé Pedro, aquele abraço! Estou achando esse tributo um barato! É maravilhoso.

Várias cantoras da atual geração da música brasileira estão mais à vontade para assumir a sua sexualidade. Acha que contribuiu para que a questão não fosse mais tabu?

Não sei o que elas falam, presto mais atenção no que elas cantam.

Mas você foi uma pioneira ao se assumir homossexual?

Não sei se fui pioneira. A gente continua na era das trevas. Se você disser algo que contrarie o estabelecido, está roubado. A gente estava no fim da ditadura quando lancei meu primeiro disco. As pessoas me perguntavam se eu era isso ou aquilo. Nem sabia o que responder. Meu pai e mamy sempre me falavam: "Você tem que ter muito orgulho de ser o que é, você é uma pessoa legal, generosa".

Você foi muito machucada pela polícia?

Sem dúvida. Eu e muita gente... Nunca processei as pessoas que me fizeram mal. Prefiro continuar viva. Vou seguindo em frente com a minha vida e o meu elenco, que são meus amigos, meus parentes maravilhosos, meu público. Que tem aumentado. Talvez eu nunca venda como Ivete Sangalo, mas tenho uma obra consistente. Não tenho acordo com o mal, só com meu anjo da guarda.

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