Milagre de palhaços

Em Mistero Buffo, La Mínima vê episódios bíblicos sob olhar satírico de Dario Fo

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2012 | 03h10

As histórias vêm da Bíblia. Mas não há nada de sagrado em jogo. Em Mistero Buffo, espetáculo que entra agora em cartaz no Teatro do Sesi, o grupo La Mínima parte do olhar satírico de Dario Fo para revisitar narrativas de feitos e milagres de Jesus Cristo.

Nesta obra do dramaturgo italiano, reconhecido com o Prêmio Nobel de Literatura em 1997, episódios bíblicos são tratadas sem a menor reverência. Escrita no fim dos anos 1960, Mistero Buffo é um extenso compêndio de fábulas. Na encenação do La Mínima, contudo, apenas quatro dessas histórias são encenadas. "Escolhemos as histórias que nos pareceram mais atuais. Aquelas que poderiam ser melhor transpostas para o nosso público. Situações do passado, mas que servissem como metáfora do presente", observa o ator Domingos Montagner.

Em cena, surgem passagens que a plateia deve reconhecer facilmente. Todas vistas, aqui, sob filtro irreverente. Histórias como a da ressurreição de Lázaro ou a de um cego e um paralítico que encontram Jesus durante a via-crúcis e temem um milagre. Se forem curados, os dois mendigos vão perder sua fonte de renda.

"A crítica do Dario Fo não se dirige à fé, mas a quem explora e se aproveita da crença popular", diz Montagner, que há 15 anos divide o palco com Fernando Sampaio.

Quem conduz o La Mínima nessa empreitada é Neyde Veneziano. Especialista na obra de Dario Fo e estudiosa das formas populares do teatro, a diretora transpôs os episódios de Misterio Buffo, concebidos originalmente como monólogos, para o formato de dupla. "O palhaço não existe sozinho. Ele precisa desse duplo. Foi daí que partimos para fazer essa adaptação", comenta a encenadora. Montagner conta que há muito tempo acalentava planos de encenar um texto do dramaturgo. "Mas sentia que precisávamos primeiro amadurecer como dupla antes de fazermos isso."

Outra marca da montagem é a adaptação do estilo de Fo para a linguagem de palhaços, traço que sempre caracterizou o trabalho do La Mínima.

A peça se baseia em jograis - historietas da Idade Média que eram declamadas entre números de música e circo por artistas de rua. Já havia, portanto, uma ligação com a imagem do palhaço, que é aqui retomada e acentuada. "Mas não é esse palhaço de picadeiro com o qual costumamos trabalhar. É um palhaço com uma postura mais incisiva, que se aproxima mais do bufão", crê Montagner.

Em suas criações, Dario Fo privilegia vozes marginais. É assim que proscritos, bêbados e vagabundos costumam ser alçados ao primeiro plano e mobilizam um discurso de forte conotação política e social.

Elemento essencial na estética do autor italiano, a simplicidade cênica é outro dos princípios que norteiam a atual encenação. Em Mistero Buffo, o grupo abre mão de qualquer adereço e adentra em um caminho de despojamento quase absoluto.

Sem mudanças de cenário ou truques de luz, os atores detêm o controle da cena. Mesmo a trilha sonora é toda executada no palco. O também palhaço Fernando Paz aparece constantemente em cena controlando as intervenções sonoras.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.