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Mila, sei, fiquei devendo

Ela amou muitos homens, viveu a vida que queria viver, foi o que desejou ser. E o coração parou

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2021 | 03h00

Noite de março de 2010. Na posse de Maria Adelaide Amaral na Academia Paulista de Letras, vi aquela mulher deslumbrante em pé, lá atrás. Corri e abracei Mila Moreira, que me cobrou: “Quando vai escrever minha história, me conhece tanto. Quantas vezes falamos sobre isso?”. Foi a última vez que nos vimos. Continuava a mesma mulher magra, alta, bonita, sensual: “Acho que tenho bastante coisa do mundo da moda e da televisão. Ainda me lembro quando à tarde eu ia ao jornal, você estava escrevendo, eu ficava olhando, perguntando, achava incrível ser jornalista. Eu te dizia: ainda vou ser muita coisa. Veja só, eu tinha 15 anos”. Lembrei, anos 1960, ela era pura malícia, riso.

Acabara de ser eleita Miss Luzes da Cidade, um concurso original criado pelo jornal Última Hora por Samuel Wainer para conquistar o público da periferia. Cada clube ou associação de bairro elegia sua miss. Depois, em grande festa no Clube Pinheiros, era eleita a Miss Luzes da Cidade. Vendia jornal, ajudava os bairros a terem visibilidade e força nas reivindicações. Mila, então Marilda Moreira, era filha de um funcionário do Banco do Brasil. Morava em um modesto apartamento no centro, na Rua Brigadeiro Tobias. Ela era da equipe de patinadoras da Associação Atlética Banco do Brasil, AABB, que na época ganhava todas as competições.

No dia seguinte à eleição, fui à casa dela fazer uma matéria de capa. Encantei-me, fomos conversando, pai e mãe juntos, criamos um perfil. Ela era sagaz (sempre quis usar esta palavra). Ganhou foto de página inteira, coisa rara em jornal. Às vezes, aparecia no jornal, a redação era no Anhangabaú, a algumas quadras da casa dela. Ia de mesa em mesa, conversava, sentava-se junto a mim na máquina de escrever, palpiteira. Sonhei em casar com ela, um dos milhões de sonhos que viajaram pela minha cabeça. 

Acabamos amigos de uma vida. Em 1963, descoberta por Livio Rangan, entrou para o belíssimo grupo de moda da Rhodia, que viajou o mundo. Encontramo-nos em Roma, fomos a Spoletto, Pisa, Veneza, Beirute, ela brilhava ao lado de Lucia Curia, Paula Peixoto, Malu, Lilian. No grupo, Sergio Mendes e seu conjunto com o gênio Raul de Souza. Ela foi tudo na moda, fez novelas, enfrentou preconceitos (“como? Uma modelo?”), amou muitos homens, viveu a vida que queria viver, foi o que desejou ser. De repente, o coração dela parou. Assim como não liguei, não visitei, não encontrei, não jantei com amigos chegados, acrescento uma dívida em minha vida: a biografia prometida à Mila, mito que vi nascer e crescer.

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