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Mil ministros cheios de fé no Supremo

Se nomear um evangélico, tem de nomear um protestante, um mórmon, um batista, um pai de santo, um pajé...

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

07 de junho de 2019 | 02h00

S. Fenerek é homem justo, democrata, deseja igualdade para todos. Gosto de conversar com ele sobre generalidades e dia desses, logo depois que o presidente emitiu novo parecer fálico, para entender melhor o alcance de certas ações corremos ao primeiro volume da História da Virilidade, organizada por Jean Corbin, Jean Jacques Courtine e Georges Vigarello, editora Vozes, e ali encontramos uma nota sobre Jacques de Fonteny (século 17), que escreveu uma pastorinha, L’Eumorphopémie ou Le Beau Pastor, na qual o autor imaginou um mundo de homens, exclusivamente de homossexuais apaixonados e viris. Machos. Teria a ver? 

Imaginamos um seminário estilo Casa do Saber, mas fomos atraídos para outro assunto. Porque o homem lá em cima é um repositório precioso, enciclopédico. Não é que ele pensa em nomear um evangélico como ministro do Supremo? Nada com o evangélico, desde que versado em leis, sábio, ponderado. Fenerek, o erudito de Santa Adélia, ficou indignado. 

“Como? Somos ou não somos um país laico? Se nomear um evangélico, tem de nomear um protestante.”

Antes que ele continuasse, acrescentei:

“E um mórmon.”

“Tem razão. E por que não também um batista?”

“E um da Igreja Universal.”

“Sem esquecer uma Testemunha de Jeová.”

“E não pode faltar um espírita kardecista.”

“Deve caber lá também um pentecostal.”

“E um pai de santo.”

“Do jeito que anda o Supremo vai precisar de muitos pais de santo.”

“E alguém bahá’í.”

“Ponha também um messiânico.”

“O Messi também criou uma religião?”

“Nada a ver, falo do culto.”

“Epa, e o budismo?”

“Acrescente o taoismo.”

“Também o xintoísmo.”

“Ah! E o umbandista.”

“Os sikhs indianos.”

“E um pajé.”

“Xi! Se põe índio, o ministro do Meio Ambiente e o pessoal do agronegócio fazem manifestação de rua.”

“Falta alguém do judaísmo.”

“Se entra um, vem também um islâmico, afinal democracia é democracia.”

“Já colocamos alguém do Evangelho Quadrangular?”

“Tem também a Igreja Deus e Amor.”

“E o do candomblé.”

“O da macumba.”

“Isso, temos de ter cuidado para não nos acusarem de preconceituosos ou politicamente incorretos.”

“Acabei de me lembrar da Religião da Divina Sabedoria.”

“E a das Treze Cruzes Sobre o Altar.”

“Há igualmente a dos Adoradores da Verdadeira Bíblia.”

“Acabei de me lembrar dos Seguidores de Mahavira.”

“Já pusemos os brâmanes?”

“Não esqueçamos os Seguidores do Barqueiro de Utnapishtim.”

De repente, veio um silêncio. Nem S. Fenerek, o venerável, e eu nos lembrávamos de mais religiões, apesar de sabermos que são milhares. E, portanto, os ministros terão de ser milhares. E como o Supremo trata de Justiça, os ministros teriam de saber leis, Constituição, etc. Ou não? Passariam a rezar, cada um orando pelo seu deus, esperando que assim o País caminhe? Afinal, Deus está acima da pátria. Será necessário construir centenas de edifícios que abriguem milhares de religiosos-ministros e seus assessores. Epa, epa! Como dizem em Santa Adélia e em Araraquara. E se um dos três filhos indicar o Queiroz, o milagroso das finanças, para comandar e pagar os assessores?

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